Arquivo mensal: julho 2011

Assessoria na Romaria dos Mártires

Padrão

Eis aí um vídeo do nosso atual assessor leigo da PJ Fernando Diegues, junto a outros tantos que já foram assessores pastorais e agora atuam em suas comunidades: Mauro Alonso, Ricardo Fischer, Thiago Oliveira e  Thiago Mancha. Os cinco aventureiros se reencontraram após cinco anos em mais uma romaria. Dessa vez, a Romaria dos Martíres da Caminhada.

A cada cinco anos, no mês de julho, milhares de pessoas se encontram em Ribeirão Cascalheira, no interior do Mato Grosso, para realizar uma romaria dedicada à memória daqueles que foram mortos defendendo a vida. É um encontro que celebra causas: a indígena, a de negros e negras, mulheres marginalizadas, meninos e meninas de rua, dos operários. Os participantes da caminhada renovam seu compromisso com as lutas pela Vida e pela Justiça.A Romaria dos Mártires da Caminhada celebra 34 anos do assassinato do padre João Bosco Burnier, uma história passada de geração em geração.É véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida, 11 de outubro de 1976. Na delegacia da vila de Ribeirão Bonito (hoje o município de Ribeirão Cascalheira, 877 quilômetros a noroeste de Cuiabá), duas sitiantes, Margarida e Santana, estão presas e sofrem torturas. Seus gritos ecoam pelos casebres da vizinhança.

“Foi quando chegaram o bispo Pedro e o padre João”.

Vindos de um encontro indigenista na área dos Tapirapés, o bispo de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, e o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, coordenador-regional do Conselho Indigenista Missionário (CIMI/MT), desembarcam no povoado com a intenção de participar da festa em homenagem à padroeira. Informados da situação, seguem direto à delegacia para interceder pelas mulheres.

Santana e Margarida são respectivamente a nora e a irmã de um sitiante que, na defesa do próprio filho, atirou e matou um soldado da região. “O soldado tinha prometido matar o filho dele. Quando foi à fazenda cumprir a promessa, o velho já estava esperando e atirou. No dia seguinte, um grupo de dez militares veio atrás”.

Como não encontraram o autor do disparo, levaram presas as duas mulheres e iniciaram uma sessão de tortura para forçá-las a revelar seu paradeiro. “Elas foram forçadas a ajoelhar no milho, em tampas de garrafa, tiveram as unhas e o bico dos seios furado com agulha”, relata outra testemunha do episódio, Eva Domingues da Rocha.

Ao chegar à delegacia, Casaldáliga e Burnier encontram quatro soldados de prontidão. Eva, que mora nas proximidades do local, é capaz de ouvir quando o padre avisa aos militares que a situação será denunciada às autoridades em Cuiabá. A advertência, porém, não surte efeito algum.

Em vez disso, os policiais se mostram cada vez mais tensos e passam a chamar os religiosos de comunistas e subversivos. Dentre eles, quem decide tomar a iniciativa é o soldado Ezy Ramalho Feitosa, que ataca Burnier com um soco e, em seguida, desfere uma coronhada que o lança ao chão.

Image

Depois, um tiro na cabeça. “Ouvimos tudo, sem poder mostrar reação”, lamenta o marido de Eva, José Carlos da Rocha, um dos primeiros a socorrer o padre em agonia. “Foi como se todo o povoado tivesse parado no tempo, sem saber para onde ir”.

A partir daí, o que se seguiu foi uma tentativa desesperada de salvar a vida do missionário. Atendido em condições precárias no próprio povoado, o padre foi levado em um avião monomotor até o Instituto Neurológico de Goiânia (GO), onde morreu, no dia seguinte.

Responsável pelo despertar, sete dias depois, de uma pequena revolução naquele distante povoado do Araguaia , a morte de Burnier ainda hoje é um dos mais fortes símbolos da luta travada entre os grandes grupos econômicos apoiados pela ditadura militar e os milhares de peões, índios e posseiros que insistiam em ficar e construir na região o seu futuro.

Simboliza também o destino de tantos outros que, no mais das vezes de forma anônima, perderam a vida em favor de quem menos podia. Desde a sexta-feira, no mesmo local onde Burnier foi assassinado, estes mártires são lembrados por milhares de romeiros, vindos de todas as partes de Mato Grosso, de vários estados do Brasil e até do exterior.

A Romaria dos Mártires da Caminhada – realizada em julho para facilitar a participação dos visitantes – tem o mesmo Casaldáliga, hoje bispo aposentado, como protagonista. Jovens da cidade apresentaram uma peça teatral que reconstituiu o episódio trágico ocorrido há mais de três décadas.

“Essa é uma história passada de geração em geração em Ribeirão Cascalheira”, explica o padre Laudimiro Borges Mirim. “É a própria população que insiste em mantê-la viva. Trata-se de um momento de libertação do município”.