‘De bem-te-vis e beija-flores’, de Selvino Heck

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Diferente de outras vezes, não vamos servir a comida em marmitas para os 3 mil participantes. Do lado de fora do Caipirão, vamos instalar uma grande churrasqueira e preparar todos os alimentos, que serão servidos em pratos pra todo mundo.”

Toda Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política, reunida no dia anterior ao 8º Encontro Nacional em Embu das Artes, São Paulo, perguntou-se se isso era possível, se haveria comida suficiente, se as filas não seriam quilométricas. Pe. Jaime Crowe, Meire Araújo, Secretária Nacional do Movimento e os demais membros da Coordenação local garantiram que tudo estava preparado, bem organizado e iria dar certo.

Foi a primeira preocupação do Encontro, cujo tema era “Em Busca da Sociedade do Bem-Viver: sabedoria, protagonismo, política“: dar boas condições de alimentação a aos que vinham em caravanas de todo Brasil. E funcionou. Comida boa, farta, nada de marmitas e nada de filas quilométricas.

Na abertura, Pe. Jaime, da paróquia Santos Mártires do Capão Redondo e Jardim Ângela, falou da história bonita da região da diocese do Campo Limpo, “onde foram eleitos os primeiros parlamentares populares em 1978”, e hoje tem o Orçamento Participativo em Embu das Artes. “O Encontro de Fé e Política deve servir para trocar idéias, valorizar a pessoa, apontar caminhos.” E pediu para todos levantarem a mão, dizendo: “Contra uma sociedade neoliberal. Queremos uma sociedade do Bem-viver.

Teresinha Toledo, falando em nome da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política, perguntou: “Para que serve a utopia? Para o escritor Eduardo Galeano, serve para caminhar. A utopia está sempre no horizonte. Sem deixar de lembrar o poema: caminheiro, não tem caminho. A gente faz o caminho ao caminhar.”

O prefeito de Embu das Artes, Chico Brito, lembrou da origem da palavra ‘política’. Vem do grego. ‘Pólis’ é cidade. Portanto, política é fazer o bem comum para a cidade.

D. Luiz Antônio Guedes, bispo da diocese de Campo Limpo, que abrigou o Encontro, falou: “Vocês estão comprometidos com a busca da vida digna para todos. Bem-viver é priorizar a vida, viver em comunidade. O Reino de Deus tem a ver com o Bem-viver”. Falou do Pe. Jaime, “esse irlandês que me viu como irmão e companheiro e que há 42 anos é um grande amigo do povo.” Lembrou de Santo Dias, “que foi mártir, derramou seu sangue em 1979 em nome dos operários. Vocês continuam lançando a semente do Bem-viver na terra.”

Foi uma grande festa de reflexão e celebração. Nem a notícia do câncer do ex-presidente Lula, que circulou como rastilho de pólvora no sábado de manhã, sendo rezado um Pai Nosso por sua cura por todos os participantes, abalou o sentimento de fraternidade e de construção solidária de uma sociedade de harmonia entre as pessoas, harmonia com a natureza, em contraposição à sociedade do consumo e do individualismo, como falou Pedro Ribeiro de Oliveira. Ou como cantou a pastora metodista Nancy Cardoso, numa voz poderosa como a de Mercedes Sosa: ‘Cambia, todo cambia’ – Muda, tudo muda, dizendo que é preciso ter a terra como amiga, a terra como amante, e proclamando o direito de dizer não, o direito de decidir, especialmente para as mulheres. O índio guarani Maurício da Silva Gonçalves, falou que a política do bem-viver é diretamente ligada à terra, de quem tiramos nosso sustento.

O 8º Encontro Nacional de Fé e Política homenageou, Santo Dias, na pessoa de sua companheira Ana Dias, assassinado há 32 anos na greve dos metalúrgicos, ele que foi das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Pastoral Operária e dos movimentos de bairro. Homenageou também o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, lutador dos direitos humanos, defensor dos perseguidos da ditadura, apoiador das CEBs e das pastorais sociais e populares. E homenageou Pe. Agostinho Pretto, falecido em setembro, que foi Assistente da JOC e da Pastoral Operária, organizador em Nova Iguaçu do 6º Encontro Nacional Fé e Política em 2007 e, sobretudo, militante e pastor.

Por isso tudo, e pela fala do monge Marcelo Barros, à última hora substituindo Leonardo Boff, pelas dezenas de oficinas realizadas sábado à tarde sobre diferentes temas, a animação de fé empolgação, aliás como sempre, de Zé Vicente, Raquel Passos, Eliane Brasileiro, Chico Esvael e muitos artistas da região, bem-te-vis cantaram o bem-querer e beija-flores celebraram o bem-viver, segundo a letra do hino do Encontro, de Germano Viana e Maria Ramalho.

Bem-te-vis e beija-flores somaram seu canto e sua esperança aos que vieram de todo Brasil e alguns países da América Latina. Os povos indígenas Aymara, Quétchua e Guaranis ensinam, em sua “caminhada milenar em busca de uma vida de plenitude e em harmonia entre o material e o espiritual, consigo mesmo e com a Mãe Terra. O paradigma do Bem-Viver nos ensina não a viver melhor, mas sim a viver bem com menos. Como disse Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância.”

Bem-te-vis do bem-querer e beija-flores do bem-viver somos todas e todos!

Em quatro de novembro de dois mil e onze.

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