Fundação Casa de São Vicente avalia saldo da rebelião

Padrão

No último fim-de-semana tudo estava silencioso na Fundação Casa de São Vicente. Do lado de fora, familiares dos internos entravam e saíam dos portões, gozando de seu direito à visita semanal. O céu era cinzento, mas não mais turvo pela fumaça que se viu na última sexta-feira, quando 27 internos da Unidade de Internação Especial (UIE), os considerados mais perigosos do complexo, colocaram fogo em colchões e destruíram mobiliário das oficinas, refeitório e celas.

Caia um chuvisco típico da entrada de uma frente fria. Não mais pedras e barras de ferro como ocorreu na noite de sextafeira. O silêncio continha um clima de pesar, um tanto de medo e outro de alívio. Não tanto pelo que foi a rebelião dos adolescentes, mais pelo que poderia ter sido. Familiares dos internos da UIE se surpreendiam com as notícias e com o limite de meia hora para suas visitas. Sabiam antes de entrar que algo deruim havia acontecido.

Não foram informadas de nada, queixou-se uma delas. Autoridades da Fundação Casa chegavam com informações diferentes das que apresentaram no dia anterior: “Foram seis agentes feridos e cinco adolescentes. Todos com escoriações”. No dia anterior falava-se em dois agentes somente.

O motivo, nas duas versões oficiais, era o mesmo, uma tentativa de fuga frustrada que acabou gerando uma rebelião, com a quebra de instalações e a necessidade da intervenção de um grupo especial, apelidado de “choquinho”, com 20 agentes armados de cassetetes, e sprays de pimenta, protegidos por escudos e capacetes. A

os agentes do “choquinho”, se juntaram especialistas em lidar com complicações relacionadas com internos ou detentos, o Grupo de Intervenção Rápida (GIR), uma espécie de tropa de elite da Secretaria de Administração Previdenciária. Por volta das 11h45 de sexta-feira, eles teriam arrombado a área da UIE onde os internos se trancaram e acabado com a rebelião.

Mas a versão da história é diferente para os internos e para pelo menos um agente (leia matéria abaixo) que acompanhou de dentro o desenrolar dos fatos. A irmã de um interno da UIE afirma que não houve tentativa de fuga e sim uma rebelião. Este cenário, segundo ela, já se anunciava há aproximadamente duas semanas, quando os adolescentes mostraram os primeiros sinais de descontentamento, durante uma refeição: “Eles estão cansados de ser esquecidos. Dizem que UIE é Unidade de Internação dos Esquecidos. Eles são deixados para trás pelos psicólogos e professores. E isso no fim de semana faz com que se sintam muito mal, por não ter o que fazer. A cabeça vazia é a oficina do Diabo”.

Seu irmão, de 17 anos, é um reincidente. Voltou à Fundação Casa por tentativa de roubo. A mãe de outro interno afirma que é comum agressão de adolescentes com tapas e chutes na genitália. “Lá dentro não existe mais nada, só as paredes e grades. Todo o resto está destruído”. O clima na Fundação Casa era tranquilo, com o céu cinza e um silêncio doído de triste.

VERSÃO DE AGENTE

A camisa e a calça que M.V., agente de apoio técnico da Fundação Casa, usava na tarde de ontem ainda estavam manchadas de sangue. Deitado no sofá de sua casa, com uma fratura na bacia e seis pontos na cabeça, ele alternava o choro compulsivo com as memórias do que vivera na noite do dia anterior: “Não foi uma tentativa de fuga. Aquilo foi uma rebelião. Isso aqui na minha cabeça não é uma escoriação. Estou cansado de ouvir mentiras”.

M. conta que acabava de assumir seu turno, às 19h quando percebeu que um dos adolescentes estava indócil. Ele e mais dois monitores estava no pátio. “Percebi o clima e disse para a colega, a mulher, sair dali que a coisa iria azedar. Não demorou. O interno voou em no pescoço de meu colega e o derrubou”. O adolescente a que M. se refere é considerado o líder da Unidade, com 17 anos e mais de 1,80m. Ele conquistou o “cargo” com sua ficha corrida: assassinou a facadas dois guardas municipais em Praia Grande.

“Quando o outro agente já começava a perder os sentidos, enforcado no chão, conseguimos, eu e outro interno, tirar seus dedos do pescoço dele. Só deu tempo de correr antes que os outros 26 adolescentes começassem a destruir tudo o que viam e atirar em nós”, lembra ele.

INFERNO – “Conseguimos trancar as outras duas unidades para que a situação não se alastrasse e pedimos ajuda. Depois foi o inferno. O mundo caiu, os meninos conseguiram fazer um capeta (um curto-circuito com fios elétricos, incendiando pedaços de papel higiênico) e colocaram fogo nos colchões e na mobília”, conta sem tentar conter as lágrimas.

“Foi aí que tomei uma pedrada na cabeça e caí. Depois soube que trinquei a bacia na queda. Não fui socorrido. Tive de pedir à minha mulher que viesse me pegar. Não houve um colega, um superior que ao menos perguntasse como eu estava. Até hoje, ninguém ligou para saber se estou vivo”. M. descreve o que sentiu com uma palavra: “humilhação”. De acordo com suas contas, outros quatro funcionários da fundação e seis do grupo de apoio, que veio para ajudar a conter os adolescentes.

“Estou cansado disso, de conviver com mentiras e com o pouco caso dos meus superiores. Não dá para viver com isso. Tenho dez anos de pátio, passei por muitas situações como essas e já ajudei – conversando – a terminar situações como esta. M. supõe que sofrerá punições por sua postura, mas afirma já estar preparado.

“O que quero é a dignidade, poder olhar para minha família de cabeça erguida, recuperar o que foi tirado de mim pela Fundação”. Ele conta que até agora ainda espera a indenização por uma demissão imotivada (da própria Fundação Casa)que foi derrubada pela Justiça”. Ele toma três remédios para depressão – e não recebe adicional de periculosidade. Enquanto a pena máxima dos adolescentes (com cinco refeições diárias) é de três anos, a “sua pena, de trabalhar na Fundação, já se arrasta por 10 anos”.

*Fernando de Santis – Jornal A Tribuna

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s