Arquivo mensal: novembro 2012

Maria das Purezas – Silvânia Shoelz

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Durante o mês de novembro, publicaremos textos em homenagem às mulheres engajadas em causas sociais pela Baixada Santista. Trata-se de trechos do livro ‘Relicário de Marias’, resultado de dez pejoteiros a partir do tema do DNJ em 2011: Juventude e Protagonismo Feminino.

Nas proximidades do Santuário Santo Antônio do Valongo (Santos), um grupo de moradores produz vassouras de garrafas pet. Coordenado por Silvânia Aparecida Shoelz, o Limpet, vem se consolidando como uma nova forma de organizar a geração de renda a partir de valores humanos como cooperação, solidariedade, democracia e preservação ambiental.

Silvânia é membro da Ordenação Franciscana Secular e atua no Santuário há cerca de dez anos, além de ter formação como professora de Educação Física. Em 2004, a partir das visitas pelos arredores da Paróquia Nossa Senhora da Assunção (Valongo, Centro e morros do São Bento, Pacheco e da Penha) através da Pastoral da Criança, então coordenada por Silvânia. Essa pastoral tem como objetivo a promoção do desenvolvimento integral de crianças entre zero e seis anos de idade em seu ambiente familiar e em sua comunidade. Era notável as poucas condições financeiras e qualificação profissional das famílias atendidas, e foi a partir daí que surgiu a idéia de um projeto de geração de renda.

Caminhando pelo Valongo, Silvânia percebia uma enorme quantidade de garrafas pet pelas ruas e após pesquisar, encontrou um projeto no Rio de Janeiro em que os presidiários transformavam o material reciclável em vassouras. Foi aberta então uma oficina de vassouras pet para a comunidade ministrado por um professor do Rio de Janeiro. Assim que nasceu o Limpet, sem nenhum maquinário e a custo zero, devido a uma imensa quantidade de garrafas pets que eram encontradas nas ruas da região.

Dona de casa e mãe de três filhos, Silvânia faz o tipo de mulher que dispensa a vaidade, quando fala do seu trabalho a frente da Limpet humildemente faz questão de se retirar da condição de coordenadora e se por como porta-voz: as decisões sempre são tomadas em grupo. A amizade é tão forte que, inclusive alguns que passaram pelo Limpet, já conseguiram uma qualificação no mercado, e mesmo após a saída o vínculo é mantido sempre.

Atualmente a marca Limpet se transformou em uma franquia solidária no qual é formada por dois núcleos: em Santos e em Carapicuíba (SP). Durante esse período, também foram realizados cursos juntos ao Sebrae. A maior expectativa dos envolvidos é que o projeto se transforme em uma cooperativa: para que todos consigam um rendimento que seja o suficiente para o seu sustento.

Por Vagner Benedito

No núcleo Valongo, sede do projeto, o Limpet conta com doze pessoas que trabalham na fabricação e na venda de vassouras, além de mais voluntários na coleta do material, contando com o apoio de moradores e comerciantes do bairro. Após a fabricação as vassouras, os próprios voluntários destinam os produtos para supermercados e casas especializadas em limpezas. Para contribuir à entidade, a Petrobras presta auxílio financeiro para ser investido em maquinário.

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Maria dos Cortiços – Samara Faustino

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Durante o mês de novembro, publicaremos textos em homenagem às mulheres engajadas em causas sociais pela Baixada Santista. Trata-se de trechos do livro ‘Relicário de Marias’, resultado de dez pejoteiros a partir do tema do DNJ em 2011: Juventude e Protagonismo Feminino.

Partilhar o lar com várias famílias até tornar possível o sonho de uma casa própria. Essa é a luta de Samara Margareth Conceição Faustino, ex-presidente e atual coordenadora geral da Associação dos Cortiços do Centro (ACC) de Santos e também coordenadora executiva da União de Movimentos de Moradia de São Paulo (UMM-SP).

Nascida em 1958, Samara morou em um cortiço paulistano com a mãe e os seis irmãos sem nunca ter tido a chance de conhecer o pai. Ainda recém-nascida, veio morar no Centro de Santos. Foi pelas ruas do bairro que conheceu adolescente seu primeiro namorado e também marido. Viúva, Samara se apega a religião budista ao cuidar de seus três filhos, e acolhe cada vez mais as crianças de suas ‘comadres’. Aliás, a líder negra de cachos avermelhados vive a sorrir e a ir de porta em porta conscientizar os moradores do Paquetá sobre seus direitos.

Nos últimos anos, Samara foi eleita a ser presidente da ACC, criada em 1966 tendo como objetivo promover a melhor qualidade de vida da população local. Na época em que foi eleita, a associação tinha um viés de política partidária. Quando eleita, Samara deu um novo olhar à Associação, pautando-se na perspectiva sócio-cultural aos moradores do cortiço. Entre os empreendimentos da ACC, ressaltam os mutirões para construir dois conjuntos habitacionais: Vanguarda 1 (113 famílias) e Vanguarda 2 (68 famílias), beneficiando 600 pessoas.

Com parcerias da Ambienta, do R3S, do Governo Federal e Estadual, a ACC realiza mutirões desde janeiro de 2009 e pretende entregar a obra a partir do primeiro semestre de 2012.  Para os mutirões, as famílias se dividem em cargas horárias respectivas ao tamanho dos apartamentos – de 8 a 16 horas semanais.

Outro projeto da ACC (parceria da Petrobras) suscitado por Samara é o projeto Raízes Corticeiras. Em um ateliê, 50 mulheres – geralmente com familiares em presídios – produzem uma linha de bijuterias coloridas de couro e chita. O sucesso de geração de renda fez com que o projeto também promovesse oficinas em outras comunidades por São Paulo.

A ACC também estará implantando a Padaria Comunitária ‘Um Só Coração’ e o Centro de Leitura do Paquetá, entre outros projetos como uma creche e um núcleo esportivo e cultural, com atividades de teatro, dança e audiovisual.

Maria das Cores – Rosangela Novaes

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Durante o mês de novembro, publicaremos textos em homenagem às mulheres engajadas em causas sociais pela Baixada Santista. Trata-se de trechos do livro ‘Relicário de Marias’, resultado de dez pejoteiros a partir do tema do DNJ em 2011: Juventude e Protagonismo Feminino.

Incomodada com o preconceito pelas diferenças de gênero, a advogada Rosangela da Silveira Toledo Novaes tornou-se desde 2010 mais uma militante pela causa de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros (LGBT). Nascida em 18 de abril de 1958, em São Paulo (SP), Rosangela é uma mulher, esposa e mãe preocupada com o desrespeito vivido por uma comunidade de tantas cores.

Na década de 80, graduou-se como engenharia metalúrgica em Mogi das Cruzes. Ao longo dos anos, em Santos, descobriu sua vocação em tornar a sociedade mais justa através das leis. Em 2004, iniciou sua carreira como advogada, inscreveu-se na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e se associou ao Instituto Brasileiro de Direito de Família (Ibdfam).

Pela voz da então vice-presidente da Ibdfam, aposentada jurista e desembargadora do STJ-RS, Maria Berenice Dias, reconheceu que o Direito não regula sentimentos, mas define as relações humanas. Portanto, é um avanço social a aprovação da ‘união homoafetiva’ como entidade familiar. Foi a partir da Ibdfam que o Brasil iniciou uma longa caminhada jurídica em respeito à diversidade sexual. Para garantia de leis em favor da igualdade de gêneros, Maria Berenice criou cursos para capacitar advogados em favor da causa LGBT.

Rosangela interessou-se em participar do curso, especializou-se em Direito Homoafetivo peal Escola Superior da Advocacia (ESA – OAB) e atualmente é coordenadora da Comissão Estadual da Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo de Ibdfam. Em 2010, implantou a mesma comissão na OAB/Santos (a terceira comissão fundada no Estado), que hoje é formada por 13 advogados.

A comissão realiza plantões quinzenais de orientação jurídica à população LGBT esclarecendo seus direitos. Logo, a Comissão sempre está envolvida em parcerias com instituições dessa comunidade. Rosangela também costuma trazer palestrantes com freqüência à OAB/Santos para capacitar dezenas de advogados em Direito Homoafetivo.

Esse segmento do Direito da Família levanta discussões interessantes e, até então, ignoradas como: adoção por casais homossexuais, direitos como condição de dependente junto a INSS, seguro de vida, plano de saúde, entre outros assuntos, como a criminalização da homofobia. Por ano, 250 homossexuais são assassinados no Brasil – sem contar nos outros milhares que sofrem do preconceito da família até a violência física nas ruas por conta de sua orientação sexual.

Japonês do Funk: mais uma vítima da criminalidade em Santos

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O candidato a vereador Ricardo Yoshimi Arato Vatanabe, de 42 anos, mais conhecido como “Japonês do Funk”, foi assassinado na madrugada desta quarta-feira no Marapé, em Santos. Ele foi encontrado morto por policiais enforcado dentro de um imóvel situado à Rua Nove de Julho, 18, no Marapé.

Sua história teve início em Presidente Prudente, interior de São Paulo, onde nasceu. Logo na infância se mudou para Santos. A música sempre fez parte da sua vida, mas começou a ganhar a vida de outro jeito: abriu um escritório de administração e corretagem de imóveis, em Santos.

Em 2002, porém, tudo mudou. Certo dia recebeu a visita de uma dupla de MCs, que o convidou para investir num CD: eram Renatinho e Alemão, também do Marapé. Foi quando ganhou o apelido Japonês do Funk. Ele era proprietário da casa noturna Fantastic Choperia, em São Vicente.

Funk pede Paz. Ricardo é o sétimo cantor baleado na Baixada Santista. Em junho, faleceu o MC Neguinho do Caxeta. Em abril, os crimes vitimaram MC Careca e MC Primo. No mesmo mês, mas nos anteriores, faleceram Duda do Marapé (2011), DJ Felipe e MC Felipe Boladão (2010). Como é possível cessarmos com tamanha covardia e violência?

Maria dos Especiais – Rita de Cássia Oliveira

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Durante o mês de novembro, publicaremos textos em homenagem às mulheres engajadas em causas sociais pela Baixada Santista. Trata-se de trechos do livro ‘Relicário de Marias’, resultado de dez pejoteiros a partir do tema do DNJ em 2011: Juventude e Protagonismo Feminino.

O cuidado materno por dezenas de filhos é a síntese do trabalho voluntário de Rita Cássia de Oliveira. Ela nasceu em 1970 em Montes Claros (MG). O pai levou a família a São Paulo quando conseguiu arrumar um emprego. Ao ser transferido pela empresa para São Vicente, a família também veio morar no litoral paulista. Rita cresceu. De filha se tornou mãe. Em 2002, deu a luz à Vitória, que nasceu com síndrome de Down. Logo descobriu a dificuldade de acesso a bens e serviços especializados. Nessa procura conheceu a Associação de Mães e Amigos dos Deficientes e Familiares (Amadef), onde se encontrava mães com as mesmas dificuldades.

A Amadef foi fundada em 10 de dezembro de 2004 e inaugurada em 20 de maio de 2005. Foi no início das atividades da entidade que Rita buscou seu auxílio. Na época, necessitava ainda de profissionais capacitados e Rita, que sempre atuou na área financeira e administrativa, foi convidada a participar do corpo voluntário. Em 2008, assumiu a diretoria financeira da entidade.

Sem fins lucrativos, o objetivo da Amadef é de promover a inclusão social, facilitando o acesso a bens e serviços de pessoas com deficiências e seus familiares. A Amadef disponibiliza espaço com equipamentos para fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia e assistência social, além de áreas livres de lazer para as crianças e adolescentes com: paralisia cerebral, deficiência física, mental, sensorial e cognitiva. Ao todo, são atendidas atualmente mais de 60 famílias de baixa renda.

Toda família que procura a Amadef é acolhida por uma mãe. Entre os atendimentos, teve um pai que cuidava do filho com paralisia cerebral. Mas não se envolvia emocionalmente com o menino, que chegou à entidade aos 6 anos e com forte depressão. Com o tempo, o pai percebeu que o filho cadeirante podia fazer todas as atividades como qualquer outra criança. Hoje, em todas as atividades, o menino conta com a presença de seu pai.

Rita também conheceu um casal recém-chegado da Bahia: um homem desgostoso e a esposa de sorriso frágil levando nos braços a filha com síndrome de Down, de três meses de vida e abaixo do peso. Após um ano, sem riscos de vida, a criança dava seus primeiros passos e mandava beijos calorosos aos pais chorando comovidos. “A mãe aconselhou as outras para acreditarem na capacidade de seus filhos. São fatos que fazem que acreditemos no nosso trabalho”.

Por Bianca Marla de Oliveira

Maria das Violentadas – Naiá Rocha

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Durante o mês de novembro, publicaremos textos em homenagem às mulheres engajadas em causas sociais pela Baixada Santista. Trata-se de trechos do livro ‘Relicário de Marias’, resultado de dez pejoteiros a partir do tema do DNJ em 2011: Juventude e Protagonismo Feminino.

Nascida em 5 de outubro de 1969 em Santos, Naiá Rocha Duarte é graduada em Direito, História, pós-graduada em Filosofia, e pelo amor que tem em lecionar exerce a profissão de professora. Ela assume também outra causa: é presidente da ONG Instituto Mulher Viva, a qual visa proteger, acolher e servir à mulher violentada, maltratada, agredida e discriminada.

Já trabalhando há 10 anos em causas sociais, Naiá afirma que a luta por uma causa é a possibilidade de estender as mãos às pessoas que sofrem. Há quatro anos, Naiá está presente na Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres. A campanha é feita em nível mundial e ocorre entre 25 de novembro e 10 de dezembro realizando palestras e outras atividades de conscientização contra à violência. No Brasil, a campanha se inicia no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, para destacar a dupla discriminação sofrida pelas mulheres negras.

Ao se deparar com casos de violência doméstica na Igreja Batista em que frequenta, Naiá decidiu que precisava agir e fundar a entidade em 1º de dezembro de 2009. Mulher Viva é mais uma voz com o intuito de erradicar a violência contra a mulher através da conscientização e prevenção. A instituição atua promovendo palestras e participando de fóruns e debates da Lei Maria da Penha.

Aprovada em 2006, a lei recebe o nome de uma mulher corajosa e agredida diariamente por anos pelo seu marido. Maria da Penha foi uma das milhares de vítimas no Brasil. Entre 1997 e 2007, nosso País contabilizou o assassinato violento de mais de 41 mil mulheres. O número surpreende também na Região. Só em 2009, a Delegacia dos Direitos da Mulher de Cubatão registrou mais de 1063 casos de mulheres violadas.

O Instituto Mulher Viva também acompanha as vítimas da violência. Em 2011, 110 pessoas foram atendidas pessoalmente ou por e-mail. Naiá exemplifica a atuação da ONG a partir de um caso muito bem-sucedido.

Michele (nome fictício) procurou a Naiá logo após uma palestra e contou que seu marido a espancava quase diariamente, e a ameaçava de morte caso ela não se sujeitasse a continuar mantendo relações sexuais com ele. Naiá a encaminhou a Delegacia da Mulher. Em paralelo, encaminharam-na à psicóloga, mas ela continuava a ser intimidada por ele. Para proteger sua vida e de seus filhos, compraram passagem para o Nordeste onde Michele tinha família. Atualmente, longe do agressor, ela mora com seus filhos e, graças a Deus, conseguiu restaurar sua vida.

Por Bruna Rosa

Maria dos Sorrisos – Michelle Didone

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Durante o mês de novembro, publicaremos textos em homenagem às mulheres engajadas em causas sociais pela Baixada Santista. Trata-se de trechos do livro ‘Relicário de Marias’, resultado de dez pejoteiros a partir do tema do DNJ em 2011: Juventude e Protagonismo Feminino.

Inspirado no filme ‘Patch Adams – O Amor e Contagioso’, o grupo Fisioterapeutas do Sorriso foi fundado em 2001 por Maria Nazaré Cerejo, que então cursava o 3º ano de Fisioterapia na Universidade Santa Cecília (Unisanta). O objetivo do projeto é transmitir amor ao próximo buscando levar alegria e compreensão, em especial, às instituições filantrópicas ou de ensino infantil: orfanatos, creches, escolas, asilos e hospitais. Quem coordena atualmente o projeto é a universitária Michelle Didone dos Santos.

Nascida em 5 de janeiro de 1992 em São Paulo (SP), a futura fisioterapeuta Michelle desde adolescente já enxergava beleza no voluntariado. Vídeos e depoimentos pela TV e Internet despertaram nela a curiosidade de como seria trabalhar ajudando as pessoas: desejou até ingressar na Cruz Vermelha e na ONG Presente de Alegria (que faz um trabalho parecido com o que coordena hoje).

Ao ingressar na universidade, um grupo de alunos do Diretório Acadêmico apresentou a ela o projeto ‘Fisioterapeutas do Sorriso’. Foi amor à primeira vista. Michelle começou a participar do projeto e sua paixão pelo voluntariado traduzido em determinação fez com que recebesse o convite para coordená-lo.

No projeto, os participantes fazem encontros semanais às instituições de caridade (revezam as visitas para atender ora idosos, ora crianças). São abertas exceções em datas comemorativas, como, por exemplo, na semana do Dia das Crianças, com atividades quase diárias. Por exemplo, o Educandário Anália Franco e um grupo de idosas na Catedral de Santos são os lugares que o projeto acompanha com mais freqüência.

Com os rostos pintados, usando narizes vermelhos e aventais, os Fisioterapeutas do Sorriso fazem de suas visitas um momento repleto de brincadeiras e dinâmicas regadas com muita música. Na universidade, por sua vez, são realizadas campanhas bimestrais de doações. Fraldas geriátricas, alimentos ou brinquedos: tudo é destinado às instituições visitadas.

A alegria por meio de gestos simples e singelos é renovada em cada encontro. Michelle se recorda que, no asilo da Sociedade São Vicente de Paulo, uma senhora chorava ao saber da internação do marido em um hospital. Da mesma forma que os voluntários ensinaram a recuperar a esperança, eles também aprenderam sobre o verdadeiro amor partilhado por ela. Até hoje, o casal de idosos o acolhem com muito carinho em cada visita do projeto universitário.

Por Késia Luise