“O Papa também saiu do armário”

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“Você não tem integridade”, “vá embora da Igreja” e “saia do armário” foram alguns rosários recitados por um católico em resposta à minha crítica ao discurso homofóbico de Levy Fidelix: “vamos enfrentar essa minoria! (…) E que quem tem esses problemas sejam atendidos por um plano psicológico, mas bem longe da gente!”.

Enfrentar em vez de respeitar o outro? Receio que além deste fiel, a fala do ex-presidenciável de 446 mil brasileiros ainda ecoe como uma salvação para milhões de pessoas – talvez em sua casa, em sua rua ou, principalmente, no templo do seu bairro. Como se esse bondoso “Deus é amor” de outdoors fosse o mesmo Ser Supremo que incita cruzadas, guerras e preconceitos entre as pessoas pelo simples fato de serem diferentes – mouros, índios ou gays.

Já é consenso científico que a identidade sexual não é uma questão de opção, mas de orientação pessoal manifestada entre o nascimento e a primeira infância. Claro que ainda se estudam quais fatores determinam essa orientação – tendências genéticas, culturais etc. Mas faz 21 anos que a Organização Mundial de Saúde reconhece que ser não-heterossexual nada tem a ver em ser doente ou vítima de uma epidemia.

Portanto, fiel cristão, que Deus Pai tão perfeito é esse que recusaria a paternidade de quem já nasceu assim, gay, lésbica, bi, travesti ou trans? Será que desrespeitar a dignidade deles com ofensas, piadas e olhares tortos é justamente seguir os passos desse Jesus andarilho que abraçava enfermos (Lucas 5), adúlteras (João 8) e ladrões (Lucas 19), conforme a Bíblia?

Bem verdade que a diversidade sexual na Igreja sempre foi um tabu. Ainda mais porque seguem críticas aos homossexuais nas Sagradas Escrituras – embora nenhuma citação seja atribuída ao líder máximo, Jesus. Assim, são livros que narram a origem do Cristianismo, sobre a cultura de um povo em um tempo que também sem direitos iguais às mulheres e aos estrangeiros.

De fato, a Bíblia é uma das compilações mais sábias da humanidade, mas não esqueçamos seu contexto. Justamente é obrigação dos religiosos reinterpretarem a vontade de Deus para a sua história, visando que todos se religuem a fé. O próprio clero latino-americano (Celam) referendou em 1968 em Medellín que a Igreja de Jesus veio aos pobres e excluídos. Aliás, os bispos reafirmaram isso em Conferências de Puebla (1979) e Aparecida (2007). Convenhamos, há hoje algum segmento mais excluído pelo cristianismo do que o LGBT?

Após dois mil anos de uma religião inspirada no mandamento de “amor a Deus e ao próximo”, ainda é comum que quem se reconheça não-heterossexual seja rejeitado por pais, amigos mais próximos, seja alvo de preconceito nas escolas no mercado de trabalho e em uma tortura constante de estereótipos na mídia. Se existe uma causa a combatermos – cristãos ou não –, essa sim é a homofobia!

É interessante apontar o aceno de mudança na singela e inspirada reflexão do Papa Francisco em outubro no Sínodo da Família ao discutir com o clero e refletir uma melhor acolhida da Igreja ao não-heterossexual: “Será que somos capazes de receber e garantir que eles terão um espaço fraterno em nossas comunidades?”. Porque, se opor ao discurso de ódio ao LGBT é sair do armário, graças a Deus não estou sozinho.

Lincoln Spada, jornalista pós-graduando em Educação Sexual
e coordenador diocesano da Pastoral da Juventude

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