SHOPPING CENTER: Entretenimento pra quem?

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rolezinho

“Não há capitalismo sem racismo” – Malcolm X.

Parece piada, mas não. O centro comercial de um dos grupos mais influentes da Baixada Santista agora deu pra definir quem pode ou não entrar no seu estabelecimento. Sim, isso em uma das cidades mais pobres de toda região. Inaugurado em 2007, o Shopping Brisamar de São Vicente foi muito comemorado por toda população. Não só pela geração de empregos, mas também por salvar os finais de semana de uma juventude fortemente marginalizada, carente tantas vezes até mesmo de saneamento básico, quanto mais de oportunidades de lazer.

Entretanto, o local que é uma das únicas alternativas de divertimento em uma cidade com trezentos mil habitantes vem orientando seus seguranças a adotarem uma medida polêmica: solicitar de um perfil bem específico de adolescentes, a apresentação do RG na entrada do local. A proposta tem clara pretensão de coibir o movimento que ficou popularizado como “rolezinho”, fenômeno que se repetiu em várias cidades do país, ganhando repercussão nacional e dividindo opiniões, consistindo em encontros marcados por adolescentes de classe média baixa. A medida que já era adotada em 2014 ganhou ainda mais força nos últimos dois meses, com rigor principalmente nos horários de pico. A chance de ser “barrado” é atenuada quando estes adolescentes vão ao local em duplas ou em pequenos grupos. Já acostumados com certo grau de constrangimento e desconfiança, a postura dos jovens tem sido de passividade na maioria das abordagens. Em nota, a administração do Brisamar manifestou que a normativa instituída é legal e tem como intuito a proteção das crianças menores de 12 (doze) anos incompletos que, nos temos do art° 2° do Estatuto da Criança e Adolescente, sequer respondem por seus próprios atos. Desse modo, entende ser dever tanto do Poder Público quanto do Brisamar Shopping a garantia da segurança física e intelectual das crianças, além do respeito a liberdade de ir e vir de todos.

Maaaaas…

Não é o que diz Ariel de Castro Alves, membro do Condeca – Conselho Estadual da Criança e do Adolescente – que considera que a solicitação de apresentação do documento passa a ser discriminatória quando se restringe a um único grupo, declarando também que a norma fere o Artigo 232 do Estatuto da Criança e Adolescente. Além dele, o advogado Fernando Paulino também se manifestou, prometendo também ingressar com um processo junto ao Ministério Público.

“Vamos analisar pelo micro. Imagine uma padaria. A mãe manda o adolescente comprar pão. Na entrada, um segurança fala: ‘só vai entrar se mostrar o RG’. Não parece absurdo? Pois é o que acontece no caso do shopping center, com a agravante de ser uma área de lazer”.

No fim do século XIX e começo do século XX, a pobreza era, segundo a política sanitarista corrente na época, uma “doença” para os centros urbanos. Foi com esse discurso que Saturnino de Brito criou os canais em Santos e transferiu as populações negras e pobres para áreas mais afastadas, como a Zona Noroeste – que alagava. Nesse mesmo período, o estado perseguiu e marginalizou a capoeira. Guardadas as devidas proporções, locais privados – que sempre discriminaram seus clientes pela pele ou vestimenta – vem agora minando a participação de negros e pardos de suas atividades. Qual foi o resultado disso ao longo dos tempos?

A manifestação popular e cultural como sempre, é restringida somente a um seleto grupo. Aos demais, cabe somente a ridicularização e a exclusão. Assim caminhamos…

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