Doc. Aparecida: Clamor pela construção do Reino.

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Como vocês já sabem, dos dias 04 à 11 de julho, a PJ Santos organizará a IV Missão Jovem, que será sediada no México 70 em São Vicente, comunidade que já foi considerada a maior “favela” em palafitas do Brasil. Preparando o espírito desde então, vejamos algumas reflexões sobre o Doc. Aparecida: 

caciqueO acontecimento da quinta Conferência Episcopal da América Latina (CELAM) em Aparecida (SP), maio de 2007, foi – e continua sendo – um grande presente de Deus à Igreja latino-americana.  O documento de Aparecida (DA) é o resultado de todo este grande evento. Nas entrelinhas percebe-se a variedade pastoral dos participantes. Notam-se diferenças, limites, algumas falhas, mas o conjunto é animador, revela um forte desejo de comunhão eclesial e de missão. O documento não é chegada, é ponto de partida, é luz para a caminhada; convida a ser criativos e fecundos, a dar corajosos passos para frente.

MISSÃO: palavra chave do Documento de Aparecida (DA)

Ao ler o documento, é bom se perguntar: onde mais bate o coração do texto? Onde está a marca mais significativa? Também as Conferências anteriores tiveram suas marcas registradas. A primeira foi no Rio de Janeiro, em 1955, onde se deram os primeiros passos para uma Igreja latino-americana mais autóctone e unida. A segunda foi em Medellín (1968), onde explodiu forte o grito bíblico de libertação, de opção pelos pobres, de uma Igreja a serviço do Reino. Foi aí que deslanchou a caminhada das CEBs. A terceira foi em Puebla (1979), onde cresceram os apelos à comunhão, à participação co-responsável na Igreja, e à defesa da dignidade humana. A quarta foi em Santo Domingo (1992), onde muito se insistiu sobre a inculturação e o protagonismo dos leigos.

É opinião comum que a palavra chave de Aparecida é MISSÃO. Já o lema da Conferência o diz: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’ Ele nossos povos tenham vida”. O método VER-JULGAR-AGIR atravessa o documento inteiro, mesmo que seja de maneira leve. O VER ocupa os dois primeiros capítulos (I-II). É um ver a realidade, com coração de discípulo missionário. O JULGAR é marcado por três eixos que explicitam a experiência cristã: a) O encontro pessoal com Jesus Cristo que nos torna discípulos missionários, fonte de grande alegria e paz (capítulos III-IV); b) A vivência eclesial, onde todos são acolhidos e valorizados como sujeitos eclesiais (capítulo V); c) O processo formativo permanente. É para gerar convicções fortes e corajosas (capítulo VI). O AGIR que vem em seguida, é missão pra valer, fecunda e permanente; ela atinge de cheio a realidade sócio-econômica, política, cultural, religiosa do Continente (capítulos VII-X).

Missão e missionários marcam o texto inteiro. O documento está organizado em 554 parágrafos. A palavra Missão aparece explicitamente em cerca de 100 parágrafos, as palavras ‘discípulos missionários’ e ‘missionários’ aparecem mais de trezentas vezes. Estas palavras iluminam também todos os outros parágrafos do documento. Elas são o paradigma, a referência, o fio condutor do documento.

Vale a pena saborear, meditar, interiorizar essas palavras, não somente de vez em quando, mas no cotidiano da vida; e partilhá-las nas comunidades, entre animadores (as) e agentes pastorais. Elas estão espalhadas ao longo de todo o documento, quais pérolas preciosas, que é preciso saber cuidar e guardar. Elas são portadoras de esperança, de energias novas, de transformação e libertação em todos os níveis. Ao meditar frase por frase é bom se perguntar, pessoalmente e/ ou em grupos: o que está me/ nos dizendo? Quais luzes e recados? Como vivenciá-las na minha/ nossa comunidade eclesial e na sociedade em que vivemos? A seguir algumas frases do Documento que falam de Missão:

MISSÃO em sentido amplo.

mj21) “Assumimos o compromisso de uma grande missão em todo o Continente” (DA 362).

2) “A missão continental procurará colocar a Igreja em estado permanente de missão” =(DA 551).

3) “Hoje, toda a Igreja na América Latina e no Caribe quer colocar-se em estado de missão” (DA 213).

4) “A Igreja necessita de forte comoção que a impeça de se instalar na comodidade” (DA 362).

5) “Esperamos em novo Pentecostes, uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança” (DA 362).

6) “A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária” (DA 370).

7) “Precisamos de uma evangelização muito mais missionária, em diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos os homens” (DA 13).

8) “Missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã” (DA 144).

9) “A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque tem sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai” (PA 347).

10) “A missão é a razão de ser da Igreja, define sua identidade mais profunda” (DA 373).

11) “A missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo” (DA 145).

12) “A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais” (DA 11).

13) “A Igreja deve cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus e adotando suas atitudes” (DA 31, cita Mt 9,35-36).

PARÓQUIAS em missão

“As paróquias são células vivas da Igreja… São chamadas a ser casas e escolas de comunhão” (DA 170).

2) “Todas as nossas paróquias se tornem missionárias” (DA 173)

3) “A renovação missionária das paróquias se impõe tanto nas cidades como no mundo rural” (DA 173)

4) “A renovação missionária das paróquias exige de nós imaginação e criatividade para chegar às multidões” (DA 173).

5) “Os melhores esforços das paróquias devem estar na convocação e na formação de leigos missionários” (DA 174)

6) “Todos os membros da comunidade paroquial são responsáveis pela evangelização dos homens e mulheres em cada ambiente” (DA 171).

7) “A renovação das paróquias exige a reformulação de suas estruturas, para que ela seja uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão” (DA 172).

8) “A imensa maioria dos católicos de nosso continente vive sob o flagelo da pobreza…A paróquia tem a maravilhosa ocasião de responder às grandes necessidades de nossos povos. Para isso tem que seguir o caminho de Jesus e chegar a ser a boa samaritana como Ele. Cada paróquia deve chegar a concretizar em sinais solidários seu compromisso social nos diversos meios em que se move, com toda a ‘imaginação da caridade'” (DA 176)

9) “A paróquia chegará a ser comunidade de comunidades'” (DA 309, citando Santo Domingo 58).

10) “Uma paróquia, comunidade de discípulos missionários, requer organismos que superem qualquer tipo de burocracia. Os Conselhos Pastorais Paroquiais terão de estar formados por discípulos missionários constantemente preocupados em chegar a todos” (DA 203).

11) “A renovação das paróquias exige a reformulação de suas estruturas, para que ela seja uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão” (DA 172).

TODOS OS CRISTÃOS: discípulos missionários de Jesus Cristo.

1) “Somos missionários para proclamar o Evangelho de Jesus Cristo e, nele, a boa nova da dignidade humana, da vida, da família, do trabalho, da ciência e da solidariedade com a criação” (DA 103).

2) “Todo discípulo de Jesus Cristo é missionário” (DA 144).

3) “Os discípulos por essência são também missionários, em virtude do Batismo e da Confirmação” (DA 377).

Consolidação do evento após todo preparo (Matéria do Presença Diocesana).

Missão a serviço da vida

1) “O discípulo missionário há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores” (DA 147).

2) “As condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e dor, contradizem a esse projeto do Pai e desafiam os cristãos a maior compromisso a favor da cultura da vida”. O reino de vida que Cristo veio trazer é incompatível com essas situações desumanas”(DA 358).

3) “A misericórdia sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais para um sistema econômico iníquo”. Requer-se que as obras de misericórdia sejam acompanhadas pela busca de verdadeira justiça social”(DA 385).

4) “Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos pobres, inclusive até o martírio” (DA 396).

5) “Solicita-se dedicarmos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas, ou anos de nossa vida e procurando, a partir deles, a transformação de sua situação” (DA 397).

6) “Assumindo com nova força essa opção pelos pobres, manifestamos que todo processo evangelizador envolve a promoção humana e a autêntica libertação, ‘sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade'” (DA 399).

7) “Os discípulos e missionários de Cristo devem iluminar com a luz do Evangelho todos os âmbitos da vida social”. A opção preferencial pelos pobres, de raiz evangélica, exige atenção pastoral voltada aos construtores da sociedade” (DA 501)

São frases que mexem e sacodem, destinadas a provocar um grande ‘vendaval do Espírito’, como aconteceu na primeira comunidade cristã de Jerusalém, no dia de Pentecostes (At 2,1-13). Não há mais dúvida: Aparecida convida toda a Igreja do Continente a orientar-se, com decisão e urgência, para a missão. Tudo mesmo: bens, estruturas, recursos, pessoas, pastorais, grupos, comunidades, paróquias, dioceses, movimentos eclesiais, centros de formação, seminários, cursos, institutos de teologia; padres, bispos, leigos, seminaristas, religiosos. É uma tarefa gigantesca e apaixonante. Todo o povo de Deus é chamado a ser discípulo missionário de Jesus Cristo, cada um no serviço específico que escolheu ou que lhe foi confiado (leigos, padres, bispos, leigos, seminaristas, religiosos. É uma tarefa gigantesca e apaixonante. Todo o povo de Deus é chamado a ser discípulo missionário de Jesus Cristo, cada um no serviço específico que escolheu ou que lhe foi confiado (leigos, padres, bispos, operários, lavradores, empresários…). Discipulado e missão conferem identidade e comunhão na diversidade dos serviços específicos.

Os porquês da Missão.

A motivação principal está na comunhão trinitária: “A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque tem sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai” (DA 347, citando o documento Ad Gentes, capítulo 2, do Concilio Vaticano 2º). O Deus revelado na Bíblia é Deus-Amor (1Jo 4,8.16), e onde há amor, há missão; portanto, Deus é Missão. Nós participamos da natureza divina (2Pd 1,4), somos filhos e filhas da Trindade Santa; herdamos a missão da Trindade. Um segundo motivo da missão é a situação do mundo, do planeta Terra. O mal está no mundo, destruindo relações de fraternidade e de paz, trazendo divisão e opressão, ferindo e destruindo o Planeta. O Documento faz uma análise detalhada dos males do mundo (DA 43-97). Diante de tudo isso, não podemos ficar indiferentes. Enquanto houver algo errado em qualquer parte do mundo, é a hora da missão. Um terceiro motivo que Aparecida lembra é a vida interna da Igreja: enfraquecimento da vida cristã, escasso acompanhamento aos fiéis leigos em suas tarefas de serviço à sociedade, despreparo da Igreja frente aos desafios da pós-modernidade, migração de católicos para outras Igrejas e grupos religiosos, católicos batizados não suficientemente evangelizados, vítimas de um mundo secularizado, onde a tendência é relativizar valores e fazer o que mais satisfaz no momento (DA 100, 293, 185, 177, 479). Portanto, a Missão “não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã” (DA 144). Ela é uma necessidade, uma urgência permanente: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16).

*Pe Luiz Mosconi, Diocese de Guarapuava/PR.

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