Arquivo mensal: julho 2015

Dois anos da JMJ. O que mudou?

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Milhares de bandeiras dançavam na praia de Copacabana...

Milhares de bandeiras dançavam na praia de Copacabana…

Setecentas e trinta e poucas voltas a Terra deu em torno de si mesma desde que a JMJ ocorreu no Rio e presumo que saiba graças ao facebook. Milhões de jovens de todas as línguas, sotaques e bandeiras fizeram da “Cidade Maravilhosa”, o centro do mundo católico durante uma semana. Por vezes na vida, vivemos momentos que são incríveis e não nos damos conta enquanto eles ocorrem. A Jornada não cabe nesse grupo: era algo que se vivenciava e se sabia o valor.

Naqueles dias frios de julho, estive de férias do trabalho. Lembro-me de acordar pela manhã e ver minha mãe se emocionando com a devoção mariana do Papa Francisco ao visitar a Basílica de Aparecida. Para muitos essa informação parece uma bobagem, mas para mim não era. Há muito tempo a “velhinha” se mantinha afastada de qualquer expressão de fé, seja cristã ou não. Desde o falecimento da minha irmã, tinha recorrido ao kardecismo, mas naquela altura nem a Zibia Gasparetto tinha mais vez. Vendo as lágrimas da Dona Rosalina naquela hora, perguntei-me: “Em quantas casas isso não está se repetindo?”. Até hoje não sei, mas sei que além de tudo, não se tratava ali de uma mera Jornada. Era o pontapé inicial de todo um ‘ousado’ pontificado, que nos surpreende todos os dias.

Maior personagem da JMJ, depois do Papa Francisco...

Maior personagem da JMJ, depois do Papa Francisco…

Não me interpretem mal os mais “ortodoxos” e apegados ao nosso papa emérito – deixo o termo “bitolado” para o Guilherme Sá do Rosa de Saron (risos) – , mas com todo respeito a beleza da sabedoria de Bento XVI, a sensação do “novo” e a identificação existente entre latino-americanos deram um tom especial. Francisco não é melhor ou pior do que qualquer outro papa, mas possui um carisma diferenciado, mais assemelhado ao que aprendi sentado em roda durante os fins de semana na base. No fim das contas, me sinto um pouco dos dois: introvertido como o Bento e “pastoral” como Francisco, mas nunca inteligente como o primeiro e um ‘showman’ feito o segundo. De toda forma, pasmem, não foi nenhum deles que justificou minha inscrição na Jornada. Oras, se quero me encontrar com o Bento eu leio “Jesus de Nazaré”, que nesse momento se encontra largado em algum canto da estante. Se bate a saudade do Papa Francisco, abro os portais de notícias escandalizados com suas declarações.

Nem o Cristo Redentor, a quadra do Salgueiro ou o bondinho. Nem as “holandesas”, como questionava maliciosamente meus amigos. A realidade é que eu estava INCOMODADO. Sim, porque ser pejoteiro nesse mundo é triste. Não é mentira, o despertar do senso crítico te faz perder amizades inteiras! Nada me agradava à ideia de um evento que caminhava para se tornar passageiro, mudaria a rotina de dioceses inteiras por dois anos e acabaria em si mesmo. Sem um “pós” ou reflexão. Sim, isso é uma crítica a Jornada, não me culpem pela visão que a própria Igreja ajudou a construir. Durante a preparação, discuti o tema com amigos que ficavam loucos, seja comendo Fandangos ou tomando vinho. O resultado é que até hoje não fui convencido do contrário:

“Não se pode cair na tentação de reduzir a evangelização da juventude unicamente a eventos massivos. Quando estes eventos não estão ligados a um acompanhamento sistemático de educação na fé, os efeitos duram pouco. Há necessidade de envolver os pequenos grupos na fase anterior e posterior para garantir que os eventos de massa se integrem num processo contínuo de educação na fé” (Doc. 85, nº 154).

A equipe nacional consegue a façanha e entrega a bandeira da PJ ao Papa, que recebe gentilmente.

A equipe nacional consegue a façanha e entrega a bandeira da PJ ao Papa, que recebe gentilmente.

Estava em jogo todo o discurso pastoral produzido por quarenta anos de caminhada, que englobava a importância do processo e da formação integral do ser humano, onde a Igreja tinha papel não restrito ao despertar espiritual, mas também as causas da vida. De uma hora para outra, isso tudo virava um grande besteirol e não me tornava nada além de um “chato”. Indeciso por um longo período, feito uma mula parada na estrada, decidi por me inscrever sem saber bem o que fazia. Arrumei minhas coisas e fui para vigília na noite da sexta para o sábado (era o que cabia no orçamento), com o peso de representar dezenas de amigos que não puderam ir por condições financeiras. Sentia-me um tanto solitário, meio ‘Bento XVI’. Na mochila, lanche industrializado regado conservante e nem metade do entusiasmo de quem viajava comigo. Na memória, o frio, o gosto da areia da praia, o sotaque portenho (compunham 80% de todos os sotaques estrangeiros daquela semana, segundo estatísticas oficiais), a dança dos focolares e a gaita de fole tocada às seis da manhã por um escocês que desfilava de kilt pela extensão a beira-mar. Bem provável também que não me una a outras quatro milhões de pessoas outra vez, experiência que diga-se de passagem, é desesperadora. Você vai sabendo que terá muita gente, mas nunca compreende a dimensão. Fomos até o Rio preparados para uma multidão equivalente ao show da Ivete, e bem… Vocês entendem. Concluí que ser peregrino nem era tão ruim assim. Mesmo com toda a confusão na distribuição dos kits de alimentação em que as filas duraram até oito horas e na dificuldade de ter necessidades básicas atendidas, graças à mudança de local para a Vigília por conta da chuva, a Jornada mostrou que a Igreja como o próprio nome já revela, é sim universal. No meio daquele ambiente, cercado de sacerdotes tão peregrinos quanto nós leigos e vendo irmãs religiosas de diferentes nacionalidades se banhando nas águas de Copacabana com seus hábitos, entendi que o católico não é tão carrancudo e a disparidade entre fiéis e clérigos nem é tão grande como declará-la Nietzsche.

Fora a dívida vulgar da Arquidiocese carioca e o estoque de polenguinhos, a JMJ trouxe sim um frescor incalculável, anunciando o amor do Mestre Nazareno para quem era afastado e encorajando quem já estava da caminhada. Ao mesmo tempo, sinto que seu potencial não foi aproveitado e não deixo de lamentar as ‘juventudes’ cada dia mais imediatistas e superficiais, que valorizam mais momentos emotivos ao invés do verdadeiro processo de educação na Fé, que se dá ao longo do tempo. Boa sorte aos que vão a Polônia. Abraço fraterno.

*Gines Salas. Andorinha cafajeste e pecadora.

Quatro milhões de pessoas e você acha alguém que conhece! Flavia (PJ e Raiz) e Pe Paulão. Eu com cabelo bagunçado, mal hálito e areia na cara ao centro.

Quatro milhões de pessoas e você acha alguém que conhece! Flavia (PJ e Raiz) , Pe Paulão e eu com cabelo bagunçado, mal hálito e areia na cara ao centro.

MISSÃO JOVEM 2015: Uma experiência marcada na memória

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“Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” – Evangelii Gaudium

Após quatro meses de preparação, reuniões, cartas, mensagens e peregrinação da cruz, enfim as terras alagadas do México 70 em São Vicente receberam a tão idealizada Missão Jovem. Cerca de sessenta inscritos, incluindo religiosos e pessoas de outras dioceses atravessaram os becos e vielas daquela que um dia já foi a maior comunidade de palafitas em extensão no Brasil, durante a década de setenta. Cheios de esperança, deixaram suas casas e o comodismo. Chegaram à Reitoria Bom Jesus dos Navegantes em uma tarde de sábado chuvosa, onde foi anunciada as famílias que acolheriam os respectivos missionários.

Estigmatizada pela imprensa como uma comunidade violenta e tomada pelo poder paralelo, o receio transparecia, nos pais dos jovens, na equipe e até mesmo na comunidade, durante todo o processo de elaboração do evento, que em alguns momentos foi visto como um “delírio”. Até onde a Missão da Igreja deve ir, sem que comprometa a integridade de seus fiéis? Até onde tal imagem que se tinha não era fruto de um preconceito, do qual nos mesmos estávamos carregados? Como definir um local como seguro ou inseguro, quando os grandes centros e os bairros nobres tem grande incidência nos índices de criminalidade? Jesus deixaria de pregar a Boa Nova em lugares ditos como perigosos? Se os cristãos viram as costas, quem é que estende a mão?

Após tantas orações e rodas de discussão, buscando respostas para nossas hipocrisias e provocados constantemente pelo Evangelho, pelos documentos da Igreja e pelas homílias do Papa Francisco, o bispo diocesano Dom Tarcísio Scaramussa enfim celebrou o envio da juventude, em Missa presidida na própria Reitoria, após um longo domingo de formação. Não haveria mais volta. Enfim, chegava à segunda-feira, com um misto de ansiedade e medo para uma equipe que meditou em todas as alternativas que protegessem os jovens de qualquer imprevisto. Na oração da manhã, uma cadelinha com meses de vida, criada por um casal morador de rua que ainda almoçaria conosco constantemente durante aquela semana, brincava por entre os cadarços dos missionários. À primeira vista, uma distração a quem procurava se concentrar e falar com Deus. Porém, um olhar mais apurado talvez enxergasse ali a própria expressão do Espírito Santo. Com o coração cheio de incertezas, mas também tomado de entusiasmo, as vias do bairro foram tomadas por uma juventude alegre que anunciava sua chegada cantando Alceu Valença. Ocorrências? Nenhuma. Nada do que previam os pessimistas se confirmou. Fomos calados por uma calorosa acolhida, de uma comunidade que muito tinha a nos ensinar. Era como se os próprios ensinamentos da Igreja e a opção pelos pequenos, tão bela na teoria, mas tão pouco vivida na prática, estivessem ali encarnados. Na coordenadora da comunidade, Dona Gilda, alguém alegre e dedicada integralmente à ação pastoral, conhecida por toda extensão do bairro não importasse o credo das pessoas. No sacerdote, Padre Claudio, um “avô” francês de coração jovem, incapaz de fazer mal ou expulsar um embriagado de uma Missa, mesmo que ele importunasse. Nesse casamento que uniu pessoas inspiradas em construir o Reino, nasceu um evento que vai deixar marcas por muito tempo na vida de quem dele participou. Além das mais variadas histórias vivenciadas nas casas que se visitaram, serenatas, práticas esportivas, oficinas de plantio e atividades com as crianças fizeram parte da semana que marcou a história da PJ Santos, encerrada com risos, abraços e o gosto salgado das lágrimas de felicidade que atravessavam os rostos inchados.

A Missão Jovem 2015 veio para confirmar que a mensagem de amor do Moreno Nazareno é ilimitada e não tem hora ou lugar para ser professada. Como diria o verso: aonde mandar…eu(nós) irei (iremos).

* Gines Salas, coordenador diocesano, da Missão Jovem e mais uma andorinha fazendo o verão.