Dois anos da JMJ. O que mudou?

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Milhares de bandeiras dançavam na praia de Copacabana...

Milhares de bandeiras dançavam na praia de Copacabana…

Setecentas e trinta e poucas voltas a Terra deu em torno de si mesma desde que a JMJ ocorreu no Rio e presumo que saiba graças ao facebook. Milhões de jovens de todas as línguas, sotaques e bandeiras fizeram da “Cidade Maravilhosa”, o centro do mundo católico durante uma semana. Por vezes na vida, vivemos momentos que são incríveis e não nos damos conta enquanto eles ocorrem. A Jornada não cabe nesse grupo: era algo que se vivenciava e se sabia o valor.

Naqueles dias frios de julho, estive de férias do trabalho. Lembro-me de acordar pela manhã e ver minha mãe se emocionando com a devoção mariana do Papa Francisco ao visitar a Basílica de Aparecida. Para muitos essa informação parece uma bobagem, mas para mim não era. Há muito tempo a “velhinha” se mantinha afastada de qualquer expressão de fé, seja cristã ou não. Desde o falecimento da minha irmã, tinha recorrido ao kardecismo, mas naquela altura nem a Zibia Gasparetto tinha mais vez. Vendo as lágrimas da Dona Rosalina naquela hora, perguntei-me: “Em quantas casas isso não está se repetindo?”. Até hoje não sei, mas sei que além de tudo, não se tratava ali de uma mera Jornada. Era o pontapé inicial de todo um ‘ousado’ pontificado, que nos surpreende todos os dias.

Maior personagem da JMJ, depois do Papa Francisco...

Maior personagem da JMJ, depois do Papa Francisco…

Não me interpretem mal os mais “ortodoxos” e apegados ao nosso papa emérito – deixo o termo “bitolado” para o Guilherme Sá do Rosa de Saron (risos) – , mas com todo respeito a beleza da sabedoria de Bento XVI, a sensação do “novo” e a identificação existente entre latino-americanos deram um tom especial. Francisco não é melhor ou pior do que qualquer outro papa, mas possui um carisma diferenciado, mais assemelhado ao que aprendi sentado em roda durante os fins de semana na base. No fim das contas, me sinto um pouco dos dois: introvertido como o Bento e “pastoral” como Francisco, mas nunca inteligente como o primeiro e um ‘showman’ feito o segundo. De toda forma, pasmem, não foi nenhum deles que justificou minha inscrição na Jornada. Oras, se quero me encontrar com o Bento eu leio “Jesus de Nazaré”, que nesse momento se encontra largado em algum canto da estante. Se bate a saudade do Papa Francisco, abro os portais de notícias escandalizados com suas declarações.

Nem o Cristo Redentor, a quadra do Salgueiro ou o bondinho. Nem as “holandesas”, como questionava maliciosamente meus amigos. A realidade é que eu estava INCOMODADO. Sim, porque ser pejoteiro nesse mundo é triste. Não é mentira, o despertar do senso crítico te faz perder amizades inteiras! Nada me agradava à ideia de um evento que caminhava para se tornar passageiro, mudaria a rotina de dioceses inteiras por dois anos e acabaria em si mesmo. Sem um “pós” ou reflexão. Sim, isso é uma crítica a Jornada, não me culpem pela visão que a própria Igreja ajudou a construir. Durante a preparação, discuti o tema com amigos que ficavam loucos, seja comendo Fandangos ou tomando vinho. O resultado é que até hoje não fui convencido do contrário:

“Não se pode cair na tentação de reduzir a evangelização da juventude unicamente a eventos massivos. Quando estes eventos não estão ligados a um acompanhamento sistemático de educação na fé, os efeitos duram pouco. Há necessidade de envolver os pequenos grupos na fase anterior e posterior para garantir que os eventos de massa se integrem num processo contínuo de educação na fé” (Doc. 85, nº 154).

A equipe nacional consegue a façanha e entrega a bandeira da PJ ao Papa, que recebe gentilmente.

A equipe nacional consegue a façanha e entrega a bandeira da PJ ao Papa, que recebe gentilmente.

Estava em jogo todo o discurso pastoral produzido por quarenta anos de caminhada, que englobava a importância do processo e da formação integral do ser humano, onde a Igreja tinha papel não restrito ao despertar espiritual, mas também as causas da vida. De uma hora para outra, isso tudo virava um grande besteirol e não me tornava nada além de um “chato”. Indeciso por um longo período, feito uma mula parada na estrada, decidi por me inscrever sem saber bem o que fazia. Arrumei minhas coisas e fui para vigília na noite da sexta para o sábado (era o que cabia no orçamento), com o peso de representar dezenas de amigos que não puderam ir por condições financeiras. Sentia-me um tanto solitário, meio ‘Bento XVI’. Na mochila, lanche industrializado regado conservante e nem metade do entusiasmo de quem viajava comigo. Na memória, o frio, o gosto da areia da praia, o sotaque portenho (compunham 80% de todos os sotaques estrangeiros daquela semana, segundo estatísticas oficiais), a dança dos focolares e a gaita de fole tocada às seis da manhã por um escocês que desfilava de kilt pela extensão a beira-mar. Bem provável também que não me una a outras quatro milhões de pessoas outra vez, experiência que diga-se de passagem, é desesperadora. Você vai sabendo que terá muita gente, mas nunca compreende a dimensão. Fomos até o Rio preparados para uma multidão equivalente ao show da Ivete, e bem… Vocês entendem. Concluí que ser peregrino nem era tão ruim assim. Mesmo com toda a confusão na distribuição dos kits de alimentação em que as filas duraram até oito horas e na dificuldade de ter necessidades básicas atendidas, graças à mudança de local para a Vigília por conta da chuva, a Jornada mostrou que a Igreja como o próprio nome já revela, é sim universal. No meio daquele ambiente, cercado de sacerdotes tão peregrinos quanto nós leigos e vendo irmãs religiosas de diferentes nacionalidades se banhando nas águas de Copacabana com seus hábitos, entendi que o católico não é tão carrancudo e a disparidade entre fiéis e clérigos nem é tão grande como declará-la Nietzsche.

Fora a dívida vulgar da Arquidiocese carioca e o estoque de polenguinhos, a JMJ trouxe sim um frescor incalculável, anunciando o amor do Mestre Nazareno para quem era afastado e encorajando quem já estava da caminhada. Ao mesmo tempo, sinto que seu potencial não foi aproveitado e não deixo de lamentar as ‘juventudes’ cada dia mais imediatistas e superficiais, que valorizam mais momentos emotivos ao invés do verdadeiro processo de educação na Fé, que se dá ao longo do tempo. Boa sorte aos que vão a Polônia. Abraço fraterno.

*Gines Salas. Andorinha cafajeste e pecadora.

Quatro milhões de pessoas e você acha alguém que conhece! Flavia (PJ e Raiz) e Pe Paulão. Eu com cabelo bagunçado, mal hálito e areia na cara ao centro.

Quatro milhões de pessoas e você acha alguém que conhece! Flavia (PJ e Raiz) , Pe Paulão e eu com cabelo bagunçado, mal hálito e areia na cara ao centro.

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