Arquivo mensal: setembro 2015

E por falar em Grito dos Excluídos: ‘Dolores dos Pobres’.

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Foto de Nélia Cursino.

“Somente uma Igreja que está com os pobres e oprimidos, que se coloca sempre ao lado deles, que luta e trabalha pela sua libetação, pela sua liberdade, pode dar testemunho coerente e convincente, da mensagem evangélica. Podemos afirmar com toda certeza que o ser e agir da Igreja se manisfesta no mundo da pobreza e da dor, da marginalização e da opressão, da fraqueza e do sofrimento. – Irmã Maria Dolores, texto da contra capa de sua biografia.

Em um modelo de sociedade cada dia mais individualista e com uma juventude carente de referências, difícil explicar o que leva alguém a atravessar o oceano a fim de comprometer-se com o outro. Assim era Irmã Maria Dolores, religiosa que saiu da Espanha na década de 60 para defender a dignidade dos ‘sem voz’ na Baixada Santista até o findar de sua missão terrena, em 2008.

Designada de início a trabalhar na cidade de São Paulo, só encontrou sua paz em São Vicente, onde foi morar numa simples palafita do Jockey Club. Era apenas o começo de uma longa história de serviço, inaugurando escolas profissionalizantes, creches municipais, ambulatórios e capelas. Das enchentes na Vila Edna, que alagavam sua casa até a altura da canela, até os mosquitos pólvora do Samaritá, a ‘Guerreira da Paz’ calava todos aqueles que a subestimavam por sua aparência frágil e baixa estatura.

Na esfera diocesana, era uma das maiores entusiastas da CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base) e articuladora do Grito dos Excluídos, alem do grande carinho pela juventude, a quem conquistava por sua ternura. Mais do que títulos, fama de santidade ou condecorações. ‘Dolores dos Pobres’ muito além do seu legado material, deixou um legado metafísico, que reside no coração dos que com ela conviveram e experimentaram um modelo de Igreja verdadeiramente servidor, que vivencia sua Fé também na busca por direitos. Seja no Humaitá, no antigo Quarentenário ou na Vila Sônia, Dolores continua a viver no povo. Preparando o espírito para o Grito dos Excluídos e para realização do Curso Diocesano ‘Juventude e Sociedade’, colhemos alguns relatos sobre a Irmã, que nos mostram a tal “Igreja de saída”, defendida pelo Papa Francisco ao longo de seu pontificado:

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Grupo de Jovens do antigo Quarentenário (atual Jd Irmã Dolores). Foto de Nélia Cursino.

“Irmã Dolores era um ‘mito’, acreditava no ser humano como ninguém. Dizia que as pessoas só construiriam uma nova realidade quando tivessem educação e consciência política. Assim era ela, militante, participante direta de todas as ações que promovessem mudanças. Aliava a ideia aparente de fragilidade com a força de uma guerreira que, incansavelmente lutava pelos seus. Existia por um só objetivo: a igualdade. Pregava e vivia a igualdade. Na Pastoral da Juventude fez muitos feitos, caminhava junto com os jovens na busca de um novo mundo, acreditava tanto nisso que era fácil crer que era possível. Tinha um grande sonho, e por ele que ela vivia, em busca de dar aos invisíveis sociais o direito de sonhar, buscar e realizar os mais loucos objetivos. Muito mais do que discursar, ela trazia possibilidades. A educação era sua maior preocupação, e foi em um bairro (quarentenário) precário, sem o mais básico que ela construiu suas maiores obras, conseguindo fortalecer uma comunidade carente do mais importante: esperança. Lá construiu muito mais que escolas, creches, casa de parto… construiu uma nova perspectiva de vida àquelas pessoas, muitas vezes dava o peixe mais nunca sem dar a rede. Oferecia doações desde que fossem futuros doadores. Formou pessoas que formaram pessoas, fez pessoas sorrirem que fizeram outras tantas sorrirem também. Esse era o jeito irmã Dolores, aquela cuja nacionalidade era o mundo. E é assim que quem a conheceu é, um pouco esperança, um pouco sonho, mas a grande parte é ação, porque, segundo ela, não basta somente querer, fazer acontecer é o que faz valer a vida. Vida sem construção é só vida. E não poderia acabar esse texto sem a frase que carregava em seus discursos aos mais importantes representantes do povo. ‘Mudança tem nome: educação’.”

Cristiane Castro. Pedagoga, 32 anos.

 “Bom, falar da Irmã Dolores é de uma grande satisfação. Infelizmente o meu contato com ela foi muito pouco, mas posso dizer que era uma pessoa incrível, guerreira e obcecada em ajudar aos mais necessitados. As palestras que administrava no Grupo de Jovens ou em reuniões da Pastoral da Criança, da Paróquia “Beato José de Anchieta” no Humaitá, ao qual participei e lembro com saudades, eram de grande ajuda a todos nós. Nos ensinou e incentivou em suas palestras a conversão dos jovens relatando as suas experiências, a dura realidade das comunidades mais carentes e a busca incessante lá em meados de 1993 a 1995, do projeto social pioneiro naquela região. Por ela iniciou os trabalhos da Casa de Apoio a Comunidade Ponte Nova em São Vicente, fomentando está comunidade e os arredores com cursos profissionalizantes, e dessa forma ensinando a comunidade a ‘Pescar o seu próprio peixe’. E tudo isso para despertar nos jovens, as questões sociais, o amor ao próximo, a caridade e o que poderíamos contribuir, não se importando com a quantidade, e sim a iniciativa de por a mão na massa. Sua missão foi cumprida com Louvor.”

Eduardo Reis, 38 anos.

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Companheiras da Irmã. Foto de Nélia Cursino.

“Falar da Irmã Dolores sem se comover é realmente difícil, mas vamos lá. Eu a conheci no lugar que ela amava estar, que era a CEBs e eu tinha uns 12 anos de idade e achava incrível aquela idosa dançar e se divertir com as pessoas com tanta disposição. Porém o que mais me encantava era a forma como ela enxergava os mais necessitados, parecia de fato enxergar o próprio Cristo no seu rosto. Fazia as coisas com tanto amor que era inevitável quem estava perto não se cativar. Sempre com seu sotaque característico, o ‘portunhol ‘, a todo o momento tinha uma palavra de carinho a dizer. Engajada nas causas em favor dos excluídos, feita de povo, com o povo e para o povo. Tiveram duas coisas que me marcaram pessoalmente sobre irmã Dolores: a primeira era a garra que ela colocava pra carregar a CEBs nos ombros, apesar da idade nenhuma face lhe passava despercebida tornando cada encontro com ela especial. Como eu era bem novo, achava que nem lembraria de mim, porém foi o contrário, pois ela tinha um carinho todo especial pelas crianças e sempre colocava eu e meu irmão para fazermos pequenos teatros nos retiros do Cefas, bastava ver a gente ela tinha uma ideia. A segunda lembrança era do tradicional Grito dos Excluídos,  onde lembro como se fosse ontem ela fazendo questão de saudar cada caravana que chegava na praça: ” bem vinda caravana de Cubatón ” . Mas o que era mais poético é como  demonstrava a forma que Deus age nos seus ungidos.  Ela subia no palanque, denunciava os problemas sociais e não se preocupava com retaliação de vereador, prefeito ou quem quer que fosse. E falava com propriedade de causa, pois vivia diariamente em contato com os necessitado. Pra finalizar, em especial esse pequeno resumo da história da irmã Dolores queria dizer que nosso mundo seria bem diferente se cada um tivesse 10% da noção da Irmã Dolores sobre quem é Cristo e como devo agir por Ele.”

Diego Florentino. Engenheiro, 27 anos.

“Era tanta simplicidade que fica difícil falar da Irmã Dolores. Lembro que sempre estava a caminho com muitos afazeres, porém nada que a impedisse de te ouvir e fazer suas brincadeiras. Nas oportunidades que tive em compartilhar o Grito dos Excluídos, estava sempre empenhada e com convicção, o que tornava impossível não se sentir envolvido.‘Vamos vamos minha gente’ sempre bradando em alta voz, naquele certeza de que seria ouvida. Com sua doçura, conseguia esconder que era por mim que ela lutava e pela minha comunidade, mas a causa era tão dela que me fazia sentir generosa em ajuda-la. Ninguém era limitado, todos eram importantes.
Seu ‘olhar além’ também fazia tremer alguns.Um certo dia em uma conversa me disse a seguinte frase: ‘Conhecimento traz o poder é muito importante que o jovem estude’. E vejo realizado um dos seus desejos com a escola profissionalizante. O que posso deixar a quem lê é seu exemplo de não ficar parada, acreditar, lutar…e acima de tudo não esquece de amar a Deus na figura do próximo.”

Lucyane Celli. Assessora comercial, 40 anos.

Títulos

◘ Mulher do Ano – concedido pela Câmara Municipal de Vereadores de Santos;

◘ Cidadã Vicentina, em 02/06/2000 – concedido pela Câmara Municipal de Vereadores de São Vicente;

◘ Santo Dias de Direitos Humanos, em 08/12/2000, pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo;

◘ Indicada para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, em 2005, pela Assembléia Legislativa de São Paulo;

Irmã Maria Dolores – uma mulher que luta por um mundo melhor – Sócia Honorária pelo Rotary Clube de São Vicente;

◘ Medalha das Astúrias de Plata Oviedo, em 07/09/2005;

◘ Lançamento do Livro “Dolores do Evangelho Caminho de Santidade da Guerreira da Paz”;

◘ Cidadã de Guarujá, em 22/02/2006;

◘ Cidadã Brasileira, Guarujá, em 21/03/2007;

◘ Medalha Honra ao Mérito Getúlio Vargas – dada em 27/11/2007, pelo Ministério do Trabalho, em Brasília;

Los Asturianos Más Destacados – dado em 2005, em Astúrias, na Espanha;

◘ El título de “Hija Predilecta de Gijón” (Filha Predileta de Gijón) e “Príncipe das Astúrias” de Gijón, Espanha, em dezembro de 2007;

◘ Diploma: Mulher Cidadã Carlota Pereira de Queiroz – prêmio outorgado pelo Legislativo Federal, em Brasília.

*Gratidão a todos que contribuíram.