Arquivo mensal: outubro 2016

Para não esquecer da CFE 2016: a balneabilidade das praias santistas

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Por: André Staudemeier

Quando se avalia o impacto do saneamento básico na qualidade de vida na Baixada Santista, deve-se levar em consideração, além do abastecimento de água e esgoto e da coleta de resíduos, a próxima relação destes fatores com outros aspectos diretamente relacionados à vida dos moradores da região: a balneabilidade das praias, a pesca e coleta artesanal, o pólo industrial de Cubatão e o Porto de Santos e Guarujá.

A balneabilidade (balnear = banhar; balneabilidade = qualidade de estar própria para banho) das praias de Santos será abordada em dois textos, com o segundo texto dividido em três partes.

  • Balneabilidade das praias da região

texto-1No Estado de São Paulo, a fiscalização da qualidade das praias é feita pela CETESB (denominação inicial Centro Tecnológico de Saneamento Básico, hoje Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). De acordo com o relatório anual da CETESB referente ao ano de 2014, as praias de Santos permaneceram próprias em 34 das 52 semanas desse período, representando 66% do tempo. Os critérios de balneabilidade das águas brasileiras são definidos pela Resolução 274/2000 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), e o parâmetro indicador utilizado pela CETESB para água do mar é a quantidade de Enterococcus, bactéria que se caracteriza por estar presente nas fezes de humanos e de animais e pela resistência à água salgada. Referente a esse parâmetro microbiológico, as praias são consideradas impróprias (para banho) pela legislação em duas situações. A primeira situação é quando a última amostra obtida apresenta concentração bacteriana superior a 400UFC/100mL, e a segunda é através da média das últimas 5 amostras apresentar concentração bacteriana superior a 100UFC/100mL. Quando pelo menos um desses critérios é atendido, a praia é considerada imprópria para banho.

O Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH) da Universidade Santa Cecília (UniSanta) desenvolve um projeto há dois anos para previsão da balneabilidade das praias da baía de Santos. Em paralelo, é realizado um estudo para avaliar a influência das chuvas locais na balneabilidade das praias.

  • Referência e confiabilidade

texto-1-3A engenheira civil e professora Alexandra Sampaio, juntamente com o biólogo e professor Renan Ribeiro e o aluno do curso de Engenharia Civil Matheus Ruiz, realizam um trabalho no NPH em parceria com a Praticagem de Santos para prever as condições de navegação do porto.

Obtendo dados reais sobre diversos indicadores (como índice pluviométrico, maré, altura das ondas, direção e intensidade das correntes de água e dos ventos, entre outros), os pesquisadores criaram um modelo numérico a partir dos dados históricos, que foi calibrado e validado em um software , a fim de prever com confiabilidade os parâmetros desejados pela Praticagem para controle do tráfego portuário, alcançando uma boa correlação entre dado e modelo, com grau de confiança de 95%.

  • Avaliação da relação entre balneabilidade e volume de chuvas.

Com uso do mesmo software e de fontes e ferramentas similares, o pesquisador Matheus começou um trabalho que visa a estudar a relação entre a balneabilidade das praias e o volume de chuvas acumulado.

A CETESB disponibiliza semanalmente a indicação da praia (própria ou imprópria) e também o valor numérico de Enterococcus. As medições são realizadas três vezes por semana em Santos (uma pela CETESB e duas pela prefeitura) e uma vez por semana em São Vicente, em diversos pontos.

Cruzando os dados de volume de chuvas nas horas anteriores à medição da balneabilidade, com os dados da frequência de ocorrência das concentrações superiores a 400 UFC/100mL, o pesquisador chegou a resultados expressivos que indicam uma correlação entre eles. Para exemplificar, tomando como referência as medições da Ponta da Praia, “do total de amostras realizadas, 15 mostraram-se superiores ao limite legislativo. Em 80% destas a precipitação acumulada nas 24h anteriores foi de pelo menos 10mm, e em 100% a precipitação em 48h foi de pelo menos 15mm, com valores médios de 25,87mm e 45,56mm, respectivamente, o que comprova uma relação direta entre a chuva e a alta concentração de Enterococcus”.

Por outro lado, cruzando os índices pluviométricos nas horas anteriores à medição da balneabilidade, com a informação de balneabilidade disponibilizada pela CETESB (própria ou imprópria), a correlação foi mais fraca. No período inicialmente apresentado pelos pesquisadores, de janeiro de 2014 a setembro de 2015, em 40 das 91 semanas a água permaneceu imprópria para banho. Dessas, a precipitação acumulada nas 24 horas anteriores foi superior a 10mm em 27,50%, e nas 48 horas anteriores foi superior a 15mm em 42,50%, e os valores médios de precipitação foram de 8,65mm e 18,46mm, respectivamente.

  • Por que essa diferença?

texto-1-4A primeira comparação foi com o primeiro dos critérios (concentração > 400UFC/100mL), já a segunda comparação utilizou a união dos dois critérios, ambas com medições da CETESB. Isto é, como são dois critérios de balneabilidade, o atendimento de um deles isoladamente basta para tornar a praia imprópria, sendo que o segundo critério (cálculo da média das últimas 5 amostras) tornou a praia “imprópria” muitas vezes.

Essa fraca correspondência na segunda comparação ocorre , segundo opesquisador, devido à baixa frequência de medições da CETESB e ao método de cálculo utilizado por eles para atestar a balneabilidade, que considera os valores das 5 últimas medições, o que no caso de Santos acaba por computar medições de até dez dias para trás: “Ainda relativamente a essas 40 semanas, 17 apresentaram concentrações inferiores a 100 UFC/100mL considerando a última coleta, fato que demonstra que a praia poderia estar com qualidade para receber os banhistas neste período”. Por conseguinte, o pesquisador conclui que “conhecer as condições da praia em tempo real ou aumentar a frequência de amostragens semanais poderá elevar o nível de confiabilidade das condições balneares da praia”. Crítica semelhante já havia sido feita pelos pesquisadores Silvia Sartor e Fernando Degaspari em 2000, porém desde então as medições sofreram modificações, inclusive pela modificação da norma no mesmo ano.

Outro problema é que existem muitas outras variáveis que influenciam na qualidade da água, como, por exemplo, as marés, e o número elevado de palafitas localizadas em São Vicente e em Vicente de Carvalho, que desaguam seus dejetos geralmente diretamente no canal do estuário, a leste e oeste da ilha de São Vicente, sendo carregados pela corrente fluvial até a Baía de Santos.

  • A explicação para a relação chuva-praia contaminada

A cidade de Santos conta com 7 km de praias e possui um sistema de drenagem pluvial composto por canais, dos quais seis desaguam nas praias e possuem comportas localizadas na orla e em regiões intermediárias. As comportas da orla ficam permanentemente fechadas, e a água que chega até ali é bombeada para a Estação de Pré-Condicionamento (EPC) da Sabesp através de interceptores na região da avenida da praia. Esse sistema interceptor evita que essa água escoada pelos canais, que está contaminada pela grande quantidade de lixo e fezes de animais deixadas nas ruas, chegue diretamente ao mar. Entretanto, volumes muito grandes de chuva implicam na necessidade de abertura dessas comportas (para evitar alagamentos na área urbana) e a descarga das águas de drenagem na região das praias.

  • Utilidade da pesquisa.

Diversos especialistas, baseados em pesquisas, concordam que a balneabilidade é afetada pelas chuvas que drenam a poluição da cidade para os canais. Suponha que a Prefeitura de Santos, a Sabesp, ou organizações da sociedade civil e acadêmica realizem uma campanha para redução do lixo nas vias públicas ou intervenções técnicas de saneamento dos canais (o que eventualmente realizam, como será visto em outra matéria). Como verificar a efetividade de tais medidas de redução da poluição na melhoria da balneabilidade das praias? Seria útil comparar resultados históricos aos resultados após as medidas de intervenção, a fim de conferir se tais medidas deram certo, além de confirmar se há mesmo relação entre a água de chuva carregada ao mar e a poluição das águas que banham as praias.

 

“Te dei um mundo de beleza e cores,
Tu me devolves esgoto e fumaça.
Criei sementes de remédio e flores.
Semeias lixo pelas tuas praças.” (HINO OFICIAL DA CFE 2016)

 

Principais referências:
Entrevista com pesquisador Matheus Ruiz
Artigo “A Balneabilidade Das Praias De Santos – Discussão Dos Critérios Oficiais De Avaliação”, de Silvia Sartor e Fernando Degaspari.
P.S.: após a conclusão do texto, foi celebrado acordo entre a prefeitura de Santos e o NPH para prestar serviços de previsão de balneabilidade das praias (hiperlink http://www.atribuna.com.br/noticias/noticias-detalhe/cidades/praias-de-santos-terao-previsao-de-balneabilidade/?cHash=826ac382d7f022319cae42636418d0d9), comprovando a qualidade do modelo.

* André é engenheiro formado pela Unisanta, é membro do grupo JSC da Paróquia da Pompéia e parece com o Rodrigo. 

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