Arquivo mensal: dezembro 2016

VLWS, FLWS!

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Coordenação Diocesana, regional e assessoria leiga em reunião ampliada realizada na Cúria.

Coordenação Diocesana, regional e assessoria leiga em reunião ampliada realizada na Cúria.

“Teu sol não se apagará

Tua lua não terá minguante

Porque o Senhor será tua luz

Ó povo que Deus conduz”.

 

Era meio de semana, mais precisamente quarta-feira, estrategicamente escolhida por ser a folga do Vagner, que trabalha em um grande shopping. Eu corri logo que saí do trabalho, atrasado. Comi um pão com margarina e peguei a linha mais longa de ônibus, que liga a área continental ao Ferry Boat. A reunião era no apartamento da Nany, onde tínhamos maior liberdade para discutir até as tantas, e que ficava no bairro da Aparecida em Santos, um ponto de encontro democrático para todo mundo – menos para o Felipe, pois nada é democrático para quem mora em Itanhaém. Ao longo das duas horas de viagem, alongadas pelo trânsito na orla da praia, eu lia os textos da faculdade e contava as faltas que podia ter nas aulas de quarta nos dedos, com medo de ser reprovado por tamanha bobagem.

Cheguei 19h30. Lá estavam Vagner, Rafa (girando o cordão da chave da sua moto) e o Igor. Nany havia deixado a chave da sua casa na portaria para iniciarmos a reunião sem ela, pois chegaria mais tarde por conta do trabalho. Enquanto os outros não vinham, iniciávamos conversas paralelas sobre emprego, impeachment da Dilma e relacionamento. A Mari chegou, paramos de falar de mulher. Depois de nos cumprimentar, ela sentou no tapete e começou a brincar com a Maju, simpática cadelinha de estimação da Nany. Enquanto Maju latia, eu e os outros meninos começávamos a debater sobre qual pizza pedir. Chega a mensagem do Felipe, dizendo que não poderia ir dessa vez. Era dia de reunião paroquial em sua comunidade.

Assim que fizemos o círculo para rezarmos, a Nany apareceu. Feita a oração, iniciamos os trabalhos, entre uma piada e outra. Igor começava falando sobre um inquietante e frutífero encontro estadual que teve com os assessores da PJ no Estado de São Paulo (ele sempre chegava bem pirado desses eventos). Enquanto ele falava, o entregador de pizza apertava a campainha. A barriga vazia já implorava por aquele exemplar magnífico e gorduroso, metade portuguesa e metade catupiry, e a da Maju também. Entre uma garfada ou outra, falávamos sobre plano diocesano, sobre contato com a base e sobre a crise na prefeitura de São Vicente, que mais uma vez me deixava sem salários.

Chega o marido da Nany, um mineiro gente boa que pilota aviões, praticamente um Tom Cruise. Quando ele faziamos menos barulho, pois ele assistia Galo Doido jogar na TV do quarto.

A hora avança, mas ainda há muito o que discutir. Tentamos fechar todos os assuntos. Em vão. “É, semana que vem a gente se reúne”. “Semana que vem eu tenho prova”. “Todos estão bastante cansados. Hora de ir para casa, já são mais de 23h”.

Essa reunião não aconteceu. É fictícia. Ou melhor, é verdadeira. Um pouquinho de cada reunião dos últimos dois anos. Em dezembro de 2014 foi eleita a estrutura diocesana, para coordenar a PJ Santos nos dois anos subsequentes. Pessoas de diferentes cidades, de diferentes formações, bagagens e realidades reuniam-se, sem ganhar um centavo sequer para debater ações em prol da evangelização da juventude. Rafa esteve na coordenação anterior e era mestre em gambiarras, fruto do seu curso de engenharia e trabalho na Codesp. Vagner, tinha o dom de ser incrivelmente metódico mesmo para falar informalmente sobre o campeonato inglês ou HQs. E eu? Bem, eu nunca fui dos mais fáceis. Em comum, um ideal. Um sonho. Não éramos amigos, não começamos entrosados. Mas dávamos o melhor de si, e isso fez com que a gente aprendesse a se admirar. Como não admirar o Vagner, cidadão de Cícero Dantas (BA) e seu ímpeto de deixar sua cidade natal para construir tão jovem uma vida aqui em São Paulo e ainda ter tempo para se dedicar a PJ?

Entre erros e acertos, desavenças e alegrias, planejamentos bem ou mal executados, o que mais me marcou nessa equipe não foi a façanha de criar diretriz diocesana, de iniciar um trabalho em conjunto com os leigos da AB-C (Animação Bíblico-Catequética) ou de realizar uma semana missionária na comunidade do México 70. Foram os momentos simples, como a tremenda larica que dava no meio de uma longa reunião ampliada, realizadas a cada dois meses junto com os coordenadores regionais em manhãs de domingo.

Em uma madrugada inesperada, uma ideia inocente poderia ser a provocação necessária para se discutir tudo o que se vinha fazendo e repensar o planejamento. Cem, duzentas mensagens, áudios. E ninguém saía do celular. A fé no Cristo revelado em um retiro qualquer no CEFAS ou em uma Gincana Vocacional nos impulsionava a acreditar e lutar por uma PJ dos sonhos, ideal para a juventude. Por duas ou três vezes, houveram desavenças maiores. Mas as pazes, feitas a base de longa conversa, de modo fraterno e bem pejoteiro, tornaram-nas saudosas.

Geralmente sempre se tem na memória uma formação, onde a mística final fez soluçar. A palavra, o toque, a leitura bíblica tocou em cheio o coração, e o amor transbordou em abraços suados e lágrimas que escorriam pelo rosto, ao som do Jorge Trevisol, da Gadú, da Adélia Prado. Essa foi a sensação do último final de semana. Fecha a janela, revista o banheiro lá no fundo e recolhe o lixo dos quartos. Hora de ir embora! O sol se põe. Como em um fim de curso, quando as luzes se apagam e os jovens saem carregando as malas pela porta afora, a velha estrutura se vai e chega a nova. Jovens se tornaram adultos, com a certeza de que viveram na Igreja os melhores anos de suas vidas. Fica a saudade, a amizade e o respeito. O Espírito segue a soprar, e a levar a PJ Santos para onde a gente não entende. Para onde a gente não sabe.

*Essa (bobagem) postagem foi escrita por Gines Salas, um pejoteiro abobado.

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