Arquivo mensal: março 2017

Estes deputados dizem representar a Igreja. Mas será que votam pensando em você?

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laura cardoso

A atual década brasileira já está marcada como a de um cenário político caótico. Desde 2013, com as manifestações de junho, passando pela acirrada disputa eleitoral de 2014, pela impopularidade do governo Dilma (PT) e pelo contestado governo de Michel Temer (PMDB), o país vem sendo marcado tanto pelas polarizações ideológicas que remontam a Guerra Fria, como por votações polêmicas no Congresso.

Desde a eleição do Papa Francisco e a projeção de seu discurso social, surgiram candidatos utilizando suas frases favoráveis a inserção de cristãos na política. Não que políticos buscando votos católicos sejam novidade, longe disso. Mas você com certeza deve ter ouvido a fala do papa sendo usada, até mesmo por aquele amigo “bitolado” que sempre criticou a PJ e as pastorais sociais por serem “políticas demais”.

Alguns grandes nomes surgiram nesse contexto, entre eles o de Evandro Gussi. Nascido em Presidente Prudente, Evandro tem trinta e seis anos e é advogado filiado ao PV. Foi eleito deputado federal pelo estado de São Paulo em 2014, com apoio decisivo da Renovação Carismática e da comunidade Canção Nova. No último dia 22, foi dele um dos 231 votos favoráveis a PL 4302/98, que terceiriza as atividades-fim de uma empresa, considerado um duro golpe a classe trabalhadora por especialistas.

Não é novidade. Desde o início de seu mandato, Gussi se demonstrou simpático a pautas que contrariam as preferencias dos movimentos sociais. Em outubro de 2016, compactuou com a também polêmica PEC 241, que estabelece teto para gastos públicos pelos vinte anos subsequentes. Semanas depois, também votou favorável a Reforma do Ensino Médio, que excluiu disciplinas como História, Sociologia e Filosofia. No entanto, diferentemente das outras votações, sua aprovação a PL da terceirização gerou descontentamento em sua página na internet, obrigando-o a dar explicações públicas.

Não precisaríamos recorrer a um intelectual para afirmar que a terceirização é um DESASTRE dos grandes na vida da classe trabalhadora. Qualquer indivíduo com um pai, um tio ou amiga que tenha trabalhado em uma terceirizada no polo petroquímico de Cubatão, por exemplo, sabe que a PL é indefensável (a não ser que você seja da FIESP rçrçrçr). Mesmo assim, segue a previsão do professor de direito Flávio Martins: “No futuro, haverá o risco inarredável de diminuição intensa dos empregos tradicionais, que serão substituídos por empresas individuais. Se eu sou dono de uma escola, em vez de contratar dez professores, contrato uma empresa formada por dez professores (não precisando pagar a eles férias, décimo terceiro etc.). Informalmente já acontece isso no Brasil em alguns setores. Um hospital não contrata um médico como empregado. Contrata a empresa individual formada por um único médico que, ao final do mês, dará uma nota fiscal dos trabalhos prestados. Assim, todos os encargos trabalhistas são colocados nos ombros do empregado, em vez do empregador”.

Eles votaram contra a terceirização, mas…

Flavinho (PSB) e Eros Biondini (PROS) são músicos católicos. Em um tempo onde a música gospel se tornou uma grande indústria e artistas viraram verdadeiros astros – para desespero de pioneiros nesse método de evangelização, como o Pe. Zezinho –, Flavinho e Biondini foram eleitos deputados, o primeiro por São Paulo e o segundo por Minas Gerais. Junto ao grande número de deputados evangélicos, compõem a famosa “Bancada da Bíblia”, bloco conhecido por defender pautas reacionárias em favor da “moral cristã”. Entre as várias votações, apoiaram o impeachment e a PEC 241. Eros aprovou ainda a redução da maioridade penal, opondo-se ao posicionamento expresso pela CNBB.

Na Baixada…

Não há exatamente um candidato católico na região, mas o período eleitoral fez muito maçom subir as escadarias do Monte Serrat pedindo voto, por exemplo. O ex-prefeito de Santos e condenado por trabalho escravo, Beto Mansur, votou a favor da terceirização, assim como Marcelo Squassoni, do Guarujá. Ambos foram eleitos com quantidade de votos menor que a de outros candidatos da região, “puxados” por Celso Russomano, que é do mesmo partido (PRB). João Paulo Papa (PSDB), também ex-prefeito de Santos, não votou.

E daí? E daí nada!

Os deputados citados dão continuidade a uma triste tradição dos católicos que se inserem na política: a de se aliar aos poderosos, sustentando um discurso enfadonho de defesa da moral e bons costumes, mas que tem por trás o apoio a ideologia neoliberal, condenada expressamente pela Igreja. A votação da Reforma da Previdência vem vindo aí. Fiquemos de olho!

*Gines Salas é pejoteiro, lutador de MMA e astrólogo. Nas horas vagas contribui na coordenação diocesana da Pastoral da Juventude. 

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A imagem manchada de Cristo

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A liturgia diária sempre aponta um itinerário a ser percorrido nas Escrituras: um Salmo que se conecta com o Evangelho e com mais alguma leitura do Primeiro ou Segundo Testamento. Fazendo a Leitura Orante da Bíblia esta manhã, foi impossível evitar a palavra “trama”, explícita no Salmo 31 e no texto de Jeremias 18, 18-20, e implícita no Evangelho de Mateus 20, 17-28. Isso na minha tradução da Bíblia Pastoral.

Rapidamente veio à minha mente uma cena em que Jesus, suplicante, repetia como Davi em seu salmo:

12Pelos opressores todos que tenho,

já me tornei um escândalo;

um nojo para meus vizinhos,

um terror para meus amigos.

Os que me veem na rua,

fogem para longe de mim.

13Fui esquecido como um morto,

e estou como objeto perdido

14Ouço o cochicho de muitos,

e o pavor me envolve!

Eles conspiram juntos contra mim

e tramam tirar-me a vida.

E por que Jesus repetiria isso? A quem poderia se referir? Lembrei-me da cena que uma aluna me mostrara no celular semana passada: uma encenação (feita em 8 de março, dia internacional da mulher) de Maria abortando Jesus, tentativa lamentável de denunciar as opressões sofridas pelas mulheres no mundo inteiro. Puxei na memória todos os atos e manifestações em que uma minoria infeliz apela para espetáculos grotescos, visando a denegrir religiosos, suas crenças, seus símbolos e imagens mais sagradas. Na imagem mental que criei, parecia que Jesus chorava o escândalo sofrido pelos opressores. E como era Leitura ORANTE, eu rezava esse drama, com o coração apertado. Ao final, eu planejava transmitir para os jovens da pastoral todas as sensações e conclusões que tive ao fazer as conexões com os outros dois textos.

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E quando ia me sentar para colocar isso tudo aqui no blog, pensei em como escrever um texto que não parecesse escrito pelos tradicionais blogs católicos, conservadores em palavras e ideias. Afinal, sou um jovem pejoteiro, ia “pegar mal” escrever sobre esse assunto delicado apenas com esse enfoque.

Então lembrei que uma amiga já havia participado de uma “Marcha das Vadias” e tido contato mais próximo com outros movimentos que defendem pautas conflitantes com as defendidas pela nossa Igreja, por vezes criticando a postura das religiões. Essa amiga, apesar de também se assustar com os radicalistas que recorrem ao “terrorismo visual”, me transmitia a importância de ignorar os extremismos e perceber as justas motivações que os impulsionavam e que muitas bandeiras levantadas nesses atos e manifestações são legítimas:  bandeiras que defendem pessoas historicamente marginalizadas e vítimas de violências e mortes; bandeiras que defendem vida digna e voz para oprimidos; e essas causas não podiam ser esquecidas, deixadas em segundo plano no debate por causa de alguns atos que mancham e denigrem as imagens e símbolos sagrados do Cristianismo.

Foi o ponto que me fez olhar para o outro aspecto desses ataques sofridos por Jesus e sua Igreja. A imagem de Cristo também é manchada por alguns de seus próprios seguidores, que se dizem cristãos e falam em Seu nome. Se a religião e seus valores têm cada vez menos importância na vida da população, se Jesus tem sido cada vez mais deixado de lado e o secularismo tem entrado com força nos corações humanos, expulsando Deus e sua mensagem, será que o motivo não está também no mau testemunho dos cristãos? A música já dizia: “Quem não te aceita, quem te rejeita, pode não crer por ver cristãos que vivem mal…”

Afinal, no próprio relato de Lucas fica evidente que, antes de ser entregue aos pagãos, Jesus fora condenado à morte pelos próprios líderes de sua religião:

18‘Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei. Eles o condenarão à morte, 19e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará’.

Triste é ver causas justas sendo defendidas por ambos os lados e sendo simultaneamente manchadas pelo ódio, intolerância, indiferença e arrogância. Em vez do diálogo construtivo e da escuta respeitosa, buscando a solução dos graves problemas que afetam nosso povo, as causas em comum são esquecidas e surge um cenário de guerra. Mais triste é ver que, por ambos os lados, Jesus sai muitas vezes ferido, zombado, crucificado, tal qual no Evangelho.

Bonito é ver que a Páscoa se aproxima com a promessa da Ressurreição, de nova vida e novos tempos para nossa gente. Mas isso não se faz sem deserto, sem cruz, sem dor. Quaresma é tempo de conversão, de perceber tudo que temos feito com autocrítica, cuidando para sermos cada vez mais reflexo do amor de Deus, dando um testemunho digno de verdadeiros cristãos. Quem sabe assim cuidaremos melhor dos que se sentem desamparados ou mesmo perseguidos pela Igreja, e esses possam então reconhecer o valor da nossa mensagem. Quem sabe assim a Igreja deixe de buscar apenas o prestígio e aplausos, e passe a servir a todos como Jesus ensina no final deste trecho do Evangelho.

Por fim, sugiro o exemplo de Jeremias para aplicar essa semana:

20Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira.

Rezemos pelos maus cristãos, pela sua conversão. Rezemos pelos que mancham a imagem de Cristo e sua Igreja, sejam esses cristãos ou não. Rezemos pelos que perseguem nossa Igreja. Afinal, Deus é lento para a ira, e quer que todos se salvem.

Tretas do Carnaval

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carnavalAloha, pejoteiros!

Isso aqui esteve mais parado que fila de banheiro químico em JMJ. Mas, como tudo no Brasil-sil-sil começa depois do carnaval, com o nosso blog não é diferente. Pra tirar o atraso, vamo tentar fazer um apanhado de tudo o que rolou nesse ilustre feriado pagão…

Eita, Vila Maria!

Carnaval é a despedida da carne e vem do latim “Carne Vadis”, que quer dizer “a carne vai se embora”. Na Idade Média a Igreja decidiu incorporar as antigas festividades pagãs afim de transforma-las ao seu calendário. O Carnaval então passou a corresponder aos últimos dias antes das limitações impostas pela Quaresma, tornando-se os últimos dias que o fiel tinha para saborear a carne. Logo então usavam a data para comemorar e se preparar para o jejum. A festa foi se desenvolvendo e, no século XIII, surgiram os bailes de máscara, principalmente na Itália.

O rompimento da Igreja com a festividade, conforme revela o historiador inglês Peter Burke, se dá de forma mais efetiva no século XVI, com a contrarreforma, que moralizou o clero e deu maior importância para as práticas do período quaresmal. Já era um período em que o número de estupros, assassinatos e todo tipo de excesso tinham um aumento vertiginoso durante a festa. Além de muita bebedeira, camponeses viravam juízes por um dia e havia inclusive uma bizarra modalidade de espancamento de urso (isso é o Burke quem descreve HAHA). Da festa participavam não apenas os fiéis, mas até mesmo sacerdotes. No Brasil, o carnaval foi comemorado desde a chegada dos portugueses, popularizando-se no século XIX.

cartola

Dona Zica e Cartola: casal de mangueirenses.

Responsável por dar origem a graves problemas que vivemos até hoje, a República Velha (1889 – 1930) reconfigurou as grandes cidades. No começo do século XX, políticas higienistas viraram moda, tanto no Rio de Janeiro como em Santos. Se por um lado serviram para conter epidemias, por outro, criaram bolsões de pobreza e deram “cor” a certos bairros. A criação dos famosos canais na cidade do maior porto da América Latina retirou os negros dos cortiços no entorno e os mandou para a periférica Zona Noroeste da cidade, que naquela época já alagava (não mudou muito, né?).

Com mulatos descendentes de escravos e imigrantes pobres em bairros operários, o samba nasce marginalizado, uma mistura de ritmos africanos e europeus. Popularizando-se, torna-se o ritmo da festa que antecede a quaresma e com o investimento do caudilho Getúlio Vargas na década de 1930, vira identidade nacional. Organizam-se os primeiros desfiles na capital carioca a partir de então.

Hoje a festa é comemorada de infinitas formas e ritmos (infinitas mesmo!), conforme a região do país. O que não muda é o comportamento nas redes sociais. Toda véspera de carnaval é igual. De um lado, a galerinha que abomina a festa e de quem dela participa, compartilhando frases de santos medievais; do outro, quem a pula. O quadro em 2017 foi agravado com a notícia de que uma Escola de Samba paulistana, a Vila Maria, homenagearia Nossa Senhora Aparecida na avenida, em comemoração dos trezentos anos de sua aparição para pescadores no Rio Paraíba. Católicos mais conservadores se escandalizaram, mesmo com o aval do Cardeal D. Odilo Scherer.

A discussão é antiga. Há católicos que declaram que todo devoto deve se fechar para qualquer janela do mundo, evitando até mesmo músicas seculares (mesmo os doutores da Igreja tendo bebido da fonte de filósofos pagãos, como Platão e Aristóteles), quanto mais participar da folia. Em contrapartida, há padres que fundaram escolas de samba, como o popular Pe. Paulo Horneaux de Moura. Em 1972, quando pároco na Paróquia São Jorge Mártir, no bairro do Estuário em Santos, incentivou a criação de um bloco carnavalesco, como uma forma de atender a juventude pobre e ociosa da região. O bloco cresceu, venceu campeonatos e virou a “G. R. C. E. S. Mocidade Independente de Pe. Paulo”, uma das mais tradicionais agremiações do carnaval santista, que já esteve entre os mais populares do país. Após sofrer muito preconceito, os anos mostraram que Pe. Paulo tinha razão.

Mas e daí, cara pálida? Onde tu quer chegar?

Quero chegar que, apesar da frase chavão de São Paulo ser sempre bem-vinda em toda e qualquer circunstância (1 Cor 6, 12), não dá pra colocar todo carnaval no mesmo pacote. O carnaval de rua voltou com tudo esse ano, trazendo as famílias de volta para os festejos e isso é louvável pra caramba. Por fim, nem todo mundo pula a festa com lança-perfume, jogando bexiga com urina e usando drogas. Há os que preferem participar de retiros espirituais, há os que preferem participar do “Ba-Bahaianas” vestidos de Léo Áquila e há os que são como eu e usam o feriado para colocar em dia as séries do Netflix.

Há críticos que dizem que os acidentes automobilísticos aumentam e o número de concepções também. Quem nunca ouviu a piada de que quem nasce nos meses de outubro e novembro é filho do carnaval? No entanto, excessos de todo tipo infelizmente existem em todo feriado, mesmo os religiosos.

No sábado, cheguei em casa quando o cantor sertanejo Daniel já fazia o esquenta do desfile da Vila Maria, cantando a música composta por Roberto Carlos. O arrepio foi imediato. Eu confesso que meu receio com o desfile era grande, mas se dava por motivos heterodoxos. Na minha exigência, sempre achei indignas as homenagens feitas a “Mariamma”, até brinquei falando com um amigo (vamo combina, o filme do Murilo Rosa é tenso!). Mas conforme as alas passavam, eu me tranquilizava. A escola seguiu as orientações da Arquidiocese (inclusive quanto a vestimenta dos componentes) e as reações na internet foram em geral positivas.

vila-maria

A verdade dura é que, em um país cada dia mais protestante, a devoção mariana tem se apagado. Lembrar de Maria e seu protagonismo é culturalmente cada vez menos presente, o que é de se lamentar profundamente, já que algumas denominações chegam a lança-la no ostracismo. Portanto, os piedosos de plantão que perdoem o autor desse post, mas o desfile foi importante. Este jovem devoto que escreve, acredita com todas as forças que a aparição da Mãe de Jesus no Vale do Paraíba mudou para sempre a história do Brasil e que estranho seria se seu terceiro centenário fosse ignorado pela maior festa popular do mundo. Mariamma, que caminha e ampara seus filhos injustiçados, esteve no último sábado em meio ao povo, vista por ele. E isso compensa muito mais do que discussões eruditas de católicos na internet.

Para terminar, deixo aqui as célebres palavras do saudoso D. Hélder Câmara:

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu… Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu. Brinque, meu povo povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”

 

Mas, como diria Los Hermanos…

 

deserto

#PartiuDeserto

Todo carnaval tem seu fim. Com a Missa de Cinzas hoje, iniciasse a preparação para a semana mais importante do calendário cristão, tempo de reflexão, autorrevisão e penitência. No Brasil, a Igreja trabalha todos os anos a Campanha da Fraternidade, que esse ano tem como Tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o Lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15). Abaixo, deixo a mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2017. Valeu, cambadinha!

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

  1. O outro é um dom

A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.

A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

  1. O pecado cega-nos

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).

O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.

Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).

O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.

Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).

  1. A Palavra é um dom

O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).

Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.

Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.

Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).

Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.

Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

Vaticano, 18 de outubro de 2016.

Festa do Evangelista São Lucas

FRANCISCO

 

* Gines é pejoteiro, historiador recém-formado, portelense e membro da CODIJUV nas horas vagas.