Tretas do Carnaval

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carnavalAloha, pejoteiros!

Isso aqui esteve mais parado que fila de banheiro químico em JMJ. Mas, como tudo no Brasil-sil-sil começa depois do carnaval, com o nosso blog não é diferente. Pra tirar o atraso, vamo tentar fazer um apanhado de tudo o que rolou nesse ilustre feriado pagão…

Eita, Vila Maria!

Carnaval é a despedida da carne e vem do latim “Carne Vadis”, que quer dizer “a carne vai se embora”. Na Idade Média a Igreja decidiu incorporar as antigas festividades pagãs afim de transforma-las ao seu calendário. O Carnaval então passou a corresponder aos últimos dias antes das limitações impostas pela Quaresma, tornando-se os últimos dias que o fiel tinha para saborear a carne. Logo então usavam a data para comemorar e se preparar para o jejum. A festa foi se desenvolvendo e, no século XIII, surgiram os bailes de máscara, principalmente na Itália.

O rompimento da Igreja com a festividade, conforme revela o historiador inglês Peter Burke, se dá de forma mais efetiva no século XVI, com a contrarreforma, que moralizou o clero e deu maior importância para as práticas do período quaresmal. Já era um período em que o número de estupros, assassinatos e todo tipo de excesso tinham um aumento vertiginoso durante a festa. Além de muita bebedeira, camponeses viravam juízes por um dia e havia inclusive uma bizarra modalidade de espancamento de urso (isso é o Burke quem descreve HAHA). Da festa participavam não apenas os fiéis, mas até mesmo sacerdotes. No Brasil, o carnaval foi comemorado desde a chegada dos portugueses, popularizando-se no século XIX.

cartola

Dona Zica e Cartola: casal de mangueirenses.

Responsável por dar origem a graves problemas que vivemos até hoje, a República Velha (1889 – 1930) reconfigurou as grandes cidades. No começo do século XX, políticas higienistas viraram moda, tanto no Rio de Janeiro como em Santos. Se por um lado serviram para conter epidemias, por outro, criaram bolsões de pobreza e deram “cor” a certos bairros. A criação dos famosos canais na cidade do maior porto da América Latina retirou os negros dos cortiços no entorno e os mandou para a periférica Zona Noroeste da cidade, que naquela época já alagava (não mudou muito, né?).

Com mulatos descendentes de escravos e imigrantes pobres em bairros operários, o samba nasce marginalizado, uma mistura de ritmos africanos e europeus. Popularizando-se, torna-se o ritmo da festa que antecede a quaresma e com o investimento do caudilho Getúlio Vargas na década de 1930, vira identidade nacional. Organizam-se os primeiros desfiles na capital carioca a partir de então.

Hoje a festa é comemorada de infinitas formas e ritmos (infinitas mesmo!), conforme a região do país. O que não muda é o comportamento nas redes sociais. Toda véspera de carnaval é igual. De um lado, a galerinha que abomina a festa e de quem dela participa, compartilhando frases de santos medievais; do outro, quem a pula. O quadro em 2017 foi agravado com a notícia de que uma Escola de Samba paulistana, a Vila Maria, homenagearia Nossa Senhora Aparecida na avenida, em comemoração dos trezentos anos de sua aparição para pescadores no Rio Paraíba. Católicos mais conservadores se escandalizaram, mesmo com o aval do Cardeal D. Odilo Scherer.

A discussão é antiga. Há católicos que declaram que todo devoto deve se fechar para qualquer janela do mundo, evitando até mesmo músicas seculares (mesmo os doutores da Igreja tendo bebido da fonte de filósofos pagãos, como Platão e Aristóteles), quanto mais participar da folia. Em contrapartida, há padres que fundaram escolas de samba, como o popular Pe. Paulo Horneaux de Moura. Em 1972, quando pároco na Paróquia São Jorge Mártir, no bairro do Estuário em Santos, incentivou a criação de um bloco carnavalesco, como uma forma de atender a juventude pobre e ociosa da região. O bloco cresceu, venceu campeonatos e virou a “G. R. C. E. S. Mocidade Independente de Pe. Paulo”, uma das mais tradicionais agremiações do carnaval santista, que já esteve entre os mais populares do país. Após sofrer muito preconceito, os anos mostraram que Pe. Paulo tinha razão.

Mas e daí, cara pálida? Onde tu quer chegar?

Quero chegar que, apesar da frase chavão de São Paulo ser sempre bem-vinda em toda e qualquer circunstância (1 Cor 6, 12), não dá pra colocar todo carnaval no mesmo pacote. O carnaval de rua voltou com tudo esse ano, trazendo as famílias de volta para os festejos e isso é louvável pra caramba. Por fim, nem todo mundo pula a festa com lança-perfume, jogando bexiga com urina e usando drogas. Há os que preferem participar de retiros espirituais, há os que preferem participar do “Ba-Bahaianas” vestidos de Léo Áquila e há os que são como eu e usam o feriado para colocar em dia as séries do Netflix.

Há críticos que dizem que os acidentes automobilísticos aumentam e o número de concepções também. Quem nunca ouviu a piada de que quem nasce nos meses de outubro e novembro é filho do carnaval? No entanto, excessos de todo tipo infelizmente existem em todo feriado, mesmo os religiosos.

No sábado, cheguei em casa quando o cantor sertanejo Daniel já fazia o esquenta do desfile da Vila Maria, cantando a música composta por Roberto Carlos. O arrepio foi imediato. Eu confesso que meu receio com o desfile era grande, mas se dava por motivos heterodoxos. Na minha exigência, sempre achei indignas as homenagens feitas a “Mariamma”, até brinquei falando com um amigo (vamo combina, o filme do Murilo Rosa é tenso!). Mas conforme as alas passavam, eu me tranquilizava. A escola seguiu as orientações da Arquidiocese (inclusive quanto a vestimenta dos componentes) e as reações na internet foram em geral positivas.

vila-maria

A verdade dura é que, em um país cada dia mais protestante, a devoção mariana tem se apagado. Lembrar de Maria e seu protagonismo é culturalmente cada vez menos presente, o que é de se lamentar profundamente, já que algumas denominações chegam a lança-la no ostracismo. Portanto, os piedosos de plantão que perdoem o autor desse post, mas o desfile foi importante. Este jovem devoto que escreve, acredita com todas as forças que a aparição da Mãe de Jesus no Vale do Paraíba mudou para sempre a história do Brasil e que estranho seria se seu terceiro centenário fosse ignorado pela maior festa popular do mundo. Mariamma, que caminha e ampara seus filhos injustiçados, esteve no último sábado em meio ao povo, vista por ele. E isso compensa muito mais do que discussões eruditas de católicos na internet.

Para terminar, deixo aqui as célebres palavras do saudoso D. Hélder Câmara:

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu… Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu. Brinque, meu povo povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”

 

Mas, como diria Los Hermanos…

 

deserto

#PartiuDeserto

Todo carnaval tem seu fim. Com a Missa de Cinzas hoje, iniciasse a preparação para a semana mais importante do calendário cristão, tempo de reflexão, autorrevisão e penitência. No Brasil, a Igreja trabalha todos os anos a Campanha da Fraternidade, que esse ano tem como Tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o Lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15). Abaixo, deixo a mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2017. Valeu, cambadinha!

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

  1. O outro é um dom

A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.

A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

  1. O pecado cega-nos

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).

O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.

Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).

O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.

Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).

  1. A Palavra é um dom

O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).

Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.

Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.

Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).

Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.

Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

Vaticano, 18 de outubro de 2016.

Festa do Evangelista São Lucas

FRANCISCO

 

* Gines é pejoteiro, historiador recém-formado, portelense e membro da CODIJUV nas horas vagas.

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