A imagem manchada de Cristo

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A liturgia diária sempre aponta um itinerário a ser percorrido nas Escrituras: um Salmo que se conecta com o Evangelho e com mais alguma leitura do Primeiro ou Segundo Testamento. Fazendo a Leitura Orante da Bíblia esta manhã, foi impossível evitar a palavra “trama”, explícita no Salmo 31 e no texto de Jeremias 18, 18-20, e implícita no Evangelho de Mateus 20, 17-28. Isso na minha tradução da Bíblia Pastoral.

Rapidamente veio à minha mente uma cena em que Jesus, suplicante, repetia como Davi em seu salmo:

12Pelos opressores todos que tenho,

já me tornei um escândalo;

um nojo para meus vizinhos,

um terror para meus amigos.

Os que me veem na rua,

fogem para longe de mim.

13Fui esquecido como um morto,

e estou como objeto perdido

14Ouço o cochicho de muitos,

e o pavor me envolve!

Eles conspiram juntos contra mim

e tramam tirar-me a vida.

E por que Jesus repetiria isso? A quem poderia se referir? Lembrei-me da cena que uma aluna me mostrara no celular semana passada: uma encenação (feita em 8 de março, dia internacional da mulher) de Maria abortando Jesus, tentativa lamentável de denunciar as opressões sofridas pelas mulheres no mundo inteiro. Puxei na memória todos os atos e manifestações em que uma minoria infeliz apela para espetáculos grotescos, visando a denegrir religiosos, suas crenças, seus símbolos e imagens mais sagradas. Na imagem mental que criei, parecia que Jesus chorava o escândalo sofrido pelos opressores. E como era Leitura ORANTE, eu rezava esse drama, com o coração apertado. Ao final, eu planejava transmitir para os jovens da pastoral todas as sensações e conclusões que tive ao fazer as conexões com os outros dois textos.

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E quando ia me sentar para colocar isso tudo aqui no blog, pensei em como escrever um texto que não parecesse escrito pelos tradicionais blogs católicos, conservadores em palavras e ideias. Afinal, sou um jovem pejoteiro, ia “pegar mal” escrever sobre esse assunto delicado apenas com esse enfoque.

Então lembrei que uma amiga já havia participado de uma “Marcha das Vadias” e tido contato mais próximo com outros movimentos que defendem pautas conflitantes com as defendidas pela nossa Igreja, por vezes criticando a postura das religiões. Essa amiga, apesar de também se assustar com os radicalistas que recorrem ao “terrorismo visual”, me transmitia a importância de ignorar os extremismos e perceber as justas motivações que os impulsionavam e que muitas bandeiras levantadas nesses atos e manifestações são legítimas:  bandeiras que defendem pessoas historicamente marginalizadas e vítimas de violências e mortes; bandeiras que defendem vida digna e voz para oprimidos; e essas causas não podiam ser esquecidas, deixadas em segundo plano no debate por causa de alguns atos que mancham e denigrem as imagens e símbolos sagrados do Cristianismo.

Foi o ponto que me fez olhar para o outro aspecto desses ataques sofridos por Jesus e sua Igreja. A imagem de Cristo também é manchada por alguns de seus próprios seguidores, que se dizem cristãos e falam em Seu nome. Se a religião e seus valores têm cada vez menos importância na vida da população, se Jesus tem sido cada vez mais deixado de lado e o secularismo tem entrado com força nos corações humanos, expulsando Deus e sua mensagem, será que o motivo não está também no mau testemunho dos cristãos? A música já dizia: “Quem não te aceita, quem te rejeita, pode não crer por ver cristãos que vivem mal…”

Afinal, no próprio relato de Lucas fica evidente que, antes de ser entregue aos pagãos, Jesus fora condenado à morte pelos próprios líderes de sua religião:

18‘Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei. Eles o condenarão à morte, 19e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará’.

Triste é ver causas justas sendo defendidas por ambos os lados e sendo simultaneamente manchadas pelo ódio, intolerância, indiferença e arrogância. Em vez do diálogo construtivo e da escuta respeitosa, buscando a solução dos graves problemas que afetam nosso povo, as causas em comum são esquecidas e surge um cenário de guerra. Mais triste é ver que, por ambos os lados, Jesus sai muitas vezes ferido, zombado, crucificado, tal qual no Evangelho.

Bonito é ver que a Páscoa se aproxima com a promessa da Ressurreição, de nova vida e novos tempos para nossa gente. Mas isso não se faz sem deserto, sem cruz, sem dor. Quaresma é tempo de conversão, de perceber tudo que temos feito com autocrítica, cuidando para sermos cada vez mais reflexo do amor de Deus, dando um testemunho digno de verdadeiros cristãos. Quem sabe assim cuidaremos melhor dos que se sentem desamparados ou mesmo perseguidos pela Igreja, e esses possam então reconhecer o valor da nossa mensagem. Quem sabe assim a Igreja deixe de buscar apenas o prestígio e aplausos, e passe a servir a todos como Jesus ensina no final deste trecho do Evangelho.

Por fim, sugiro o exemplo de Jeremias para aplicar essa semana:

20Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira.

Rezemos pelos maus cristãos, pela sua conversão. Rezemos pelos que mancham a imagem de Cristo e sua Igreja, sejam esses cristãos ou não. Rezemos pelos que perseguem nossa Igreja. Afinal, Deus é lento para a ira, e quer que todos se salvem.

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