Vamos falar sobre o cuidado…

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depressão

Não faz tanto tempo assim. Era lá pela metade dos anos 2000 e tudo que eu tinha para fazer na vida era descobrir como se criar conta de Orkut, estudar e assistir MTV – nada de muito fantástico para um adolescente suburbano e “boca-virgem”. A escola era um ambiente sofrível para quem tinha um metro e meio e casacos confeccionados pela mãe. O projeto de vida na época era acabar com aquela angustia, se inserir no mercado de trabalho e orgulhar a família, para a felicidade do “sistema”.

Na oitava série (atual nono ano), entrou na nossa sala uma garota que chamarei de “M”, que unia características distintas: alta, olhos castanhos claros, bela segundo os padrões de beleza por um lado; óculos de lentes grossas, um jeito meio ingênuo e gosto pelo Calypso por outro. O grande erro de “M” naquele ano foi tentar ser amiga de um grupo de amigos – do meu grupo de amigos. O grupo, que tava longe de ser dos mais populares da escola, onde o maior dos esportes era jogar Conquer, não queria amizade com “M” e se esforçava para lembra-la disso. Uns dois anos mais tarde ela me diria que o tempo em que a zombávamos, foram os mais difíceis de sua vida. De noite, ela chorava no seu travesseiro; de dia, ouvia mais uma piada criativa.

A escola é reflexo da sociedade e a sociedade é má. Não é à toa que, não importa a educação que a pessoa tenha obtido em casa, é na escola que a maioria aprende a falar palavrão, a tirar vantagem e a se defender – no pior sentido da expressão. O ambiente competitivo e individualista escolar, não importa o quanto os pedagogos lutem, transforma meninas e meninos em adultos insensíveis a dor alheia, corrompidos. Em pessoas que traem umas às outras. Perde-se em cuidado; ganha-se em maldade.

Nos últimos dias, “13 Reasons Why” (Os 13 Porquês no Brasil), baseada no homônimo de Jay Asher, tem sido muito comentada nas redes sociais, além de aumentar em 100% a procura por ajuda no Centro de Valorização a Vida (CVV). A série do Netflix fala sobre bullying, solidão, agressão física, psicológica e suicídio. A história se passa na Califórnia, e começa quando Clay Jensen, estudante desajustado do Ensino Médio, encontra uma caixa de sapatos contendo sete fitas cassetes gravadas por Hannah Baker, sua “crush”, falecida recentemente. As fitas, inicialmente enviadas por um colega com instruções para serem repassadas de um estudante para o outro, no estilo de uma carta em cadeia, continham a explicação de Hannah para o seu suicídio, apresentando treze razões que explicam o porquê de seu ato e as pessoas que o justificaram. Através da narrativa de áudio, Hannah revela sua dor e sofrimento.

Não é de hoje que o Ensino Médio inspira grandes histórias que se convertem em sucesso, algumas delas com bastante verdade. Os diversos eventos e personagens despertam identificação, seja pelas festas, pelo primeiro amor ou pelo jovem nerd – que geralmente é o queridinho dos roteiristas, já que escritores foram os nerds introvertidos quando estudavam. É constrangedor que poucas produções brasileiras tenham retratado dignamente o mundo teen em comparação com as norte-americanas – “Malhação” está no ar há mais de vinte anos e é um verdadeiro “Fantástico Mundo de Bob” (mais fácil olhar para o céu e crer que o Goku irá cruza-lo em cima da nuvem voadora). “Cidade dos Homens” mostrou bem o universo do jovem negro da periferia, mas o brasileiro médio não curte (tsc). Filmes e séries de colégio costumam ser bem-humorados, com um final feliz. “13 Reasons Why” apesar de seus momentos leveza é pesada, obscura e se esforça em ser perturbadora para quem assiste. O maior mérito do texto, graças ao apoio de psicólogos na sua elaboração, está em criar personagens  humanos, com características e atitudes que nós também temos, e não simples bad boys. É como se nos apontassem o dedo na cara e falassem: “você também tem culpa”. Ao mesmo tempo, houveram críticas contundentes, como a de Pablo Vilaça, que vê a série como irresponsável, um potencial “gatilho” para o suicídio de telespectadores depressivos.

Sejamos honestos. Depressão já é um distúrbio que sofre um significativo preconceito, que dirá o bullying, um debate relativamente recente (durante um jogo da seleção um dia desses, o Galvão Bueno fez um comentário totalmente irresponsável ligado ao tema, por exemplo). Em um universo onde as pessoas aprenderam a naturalizar apelidos sobre tamanho de orelha, cor da pele, sexualidade, etc, onde quem não está nos “padrões” é ridicularizado por comediantes, fica fácil entender a resistência. Para essas pessoas, depreciações públicas são só episódios comuns da adolescência, que devem ser superados. Para os incautos, depressão é frescura. Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), no entanto, há muitos “frescos” no mundo: um, em cada dez jovens sofre com depressão. Dos seus dez amigos, quem você escolheria?

E daí? E daí nada.

O bullying não costuma ser motivo de arrependimento nos momentos de perdão da Missa ou no sacramento da reconciliação, mas deveria. O agressor peca – e muito –, e os que se omitem também. Não se trata só da agressão, mas o que ela provoca e representa. A sua prática revela uma sociedade individualista, egoísta, cruel e covarde. O resultado costuma dar luz a pessoas traumatizadas (mesmo as que justificam ter superado), desconfiadas, feridas. Como uma bola de neve, o bullying acontece quando alguém mais forte – ou um grupo – agride quem é mais fraco. Pessoas fracas inseguras que querem ser aceitas, também se tornam agressoras. Os que não agridem, assistem e não estendem a mão.

Na Bíblia, não são poucas as passagens que demonstram a necessidade do cuidado com o outro. Na Samaria, Jesus bebeu da água de uma mulher considerada impura (João 4, 1-28), veio para nos dar vida em abundância (João 10, 10), ordenou-nos a amar o próximo como a nós mesmos (Mateus 22, 39) e esteve o tempo todo acompanhado por prostitutas, leprosos e zelotas. No Novo Testamento é revelado que Deus não faz acepção de pessoas (São Tiago 2, 9) e no Antigo, que fomos criados a Sua imagem e semelhança (Gênesis 1, 26), sendo assim homens e mulheres, repletos de dons e virtudes, que devem amar como são amados.

Se as escolas refletem uma sociedade doente, o que dizer dos grupos de base, que falam em opção preferencial pelos pobres, mas se esquecem do cuidado com o outro? Quantos não saem machucados por práticas anticristãs em ambientes que pretendem formar o jovem integralmente, visto por muitos também como o último dos refúgios? Quantas pessoas você machucou no dia de hoje? Durante o mês? Esse ano?

Não é algo simples, mas converter-se não é simples. Nunca é tarde para rever a caminhada e examinar a consciência. É necessário não só mudar a si próprio, mas acima de tudo defender políticas públicas de saúde voltadas a prevenção do suicídio. Fale sobre depressão. Fale sobre o bullying. Procure por ajuda, espiritual (com seu pároco) e profissional (www.cvv.org.br ou 141).

*Gines Salas, o pior ser humano do mundo.

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