#MJ2017: Bate-papo com Pe. Alexander

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Pe. Alex

Pe. Alex e Dona Flora (paroquiana) durante sua despedida da Paróquia Nsa. Sra. do Perpétuo Socorro, janeiro deste ano.

Há pouco tempo na Paróquia Santa Rosa de Lima, Pe. Alexander Marques – ou simplesmente Pe. Alex – nos concedeu uma gentil conversa. O homem que topou construir conosco a nossa #MJ2017 – para se inscrever, clique aqui – é fã de Star Wars, tem compulsão por estudos e possui o afetuoso hábito de cumprimentar a todos com um beijo no rosto – uma herança herdada da convivência com o falecido Pe. Paulo Horneaux de Moura, seu padrinho. Fala com carinho da Paróquia Nsa. Sra. Perpétuo do Socorro, São Vicente, onde exerceu como pároco por seis anos e deixou muitos amigos. Em nosso bate-papo, falou sobre vocação, política e juventude na Igreja.

Pejoteiros Santos: O senhor está faz pouquíssimo tempo do Guarujá. Ficou feliz por se livrar de São Vicente?

Pe. Alex: (Risos) Não…não fiquei. São Vicente foi a cidade em que eu cresci, sabe? Eu só nasci em Santos. Desde os meus primeiros dias de vida eu moro em São Vicente. Sempre morei em São Vicente, só sai daí quando fui para Santo Amaro estudar, fiquei sete anos fora, mas sempre tive um laço muito importante com a cidade. Meus pais moram em São Vicente, meu irmão mora em São Vicente e os seis anos que eu passei no Jardim Rio Branco foram muito bons. Eu amo São Vicente, como a maioria dos vicentinos. Temos muitos problemas e Guarujá também, mediante a crise que estamos vivendo no país, fruto da má administração e das crises sociais, relacionadas a pobreza, a violência, a falta de segurança, etc. Guarujá é uma cidade que vive contrastes, né? Tem uma área nobre onde tem mansões e muitas favelas, tantas quanto São Vicente. São duas cidades bem parecidas, tirando o fato das praias. As praias do Guarujá são belíssimas. São Vicente, não (risos). Mas São Vicente é uma cidade que tem tudo pra dar certo, as pessoas precisam se educarem mais, no sentido de valorizar a cidade, não jogar lixo nas ruas…isso tudo prejudica muito a imagem da cidade. São Vicente é a primeira cidade do Brasil, conhecida nacionalmente, o povo de lá é muito bom. Mas agora é uma nova realidade, na Paróquia Santa Rosa de Lima e na cidade em que estou, no Guarujá.

Pejoteiros Santos: Fora Filosofia e Teologia, o senhor concluiu Psicologia recentemente e agora tá fazendo Mestrado em Educação. Explica um pouco dessa “piração” sua pelos estudos. É saudade da Unisantos?

Pe. Alex: É um pouco de saudade sim da universidade. A universidade é uma das minhas paixões e eu nunca escondi de ninguém, eu sempre gostei de estudar. Até meus colegas de turma tiravam sarro de mim, que o meu quarto para entrar tinha que ir abrindo os livros pra ocupar menos espaço (risos). Acho que a formação do padre é uma formação continua, o padre não pode pegar e  dizer “fiz filosofia e teologia, tá bom!”. Acho que o povo merece isso, né? Quando eu tava no seminário, eu estudava muito, principalmente na Teologia. Filosofia foi um pouco mais complicado, pois estava no início do processo. Eu não fiz Filosofia aqui em Santos, fiz no Instituto São Boaventura, em Santo Amaro. Eu iniciei a minha caminhada em Santo Amaro e na Teologia foi que eu me transferi para Santos. Então, na Teologia me apliquei muito. Saia da faculdade, tinha os afazeres da casa e quando sobrava tempo eu pegava e ia estudar. Na Psicologia não deu pra me dedicar tanto, pois eu já era padre. No começo do curso eu tava como Vigário do Pe. Valdeci na Lapa (Par. Nsa Sra da Lapa, Cubatão) e por isso não tinha tantas responsabilidades como um pároco tem. A partir do momento que me tornei  pároco da Perpétuo Socorro (Paróquia Nsa Sra do Pérpetuo Socorro, São Vicente) eu comecei a ter um pouco menos de tempo. Estudar é meio que uma aptidão minha, eu não gosto muito de ficar parado. Aí me veio a ideia, depois de dois anos, de fazer Mestrado. Mais pra frente eu vejo o que eu faço, se eu faço Doutorado ou outro tipo de especialização. Quando eu era seminarista eu dizia o seguinte: “O povo tá investindo na gente. O povo paga nossa faculdade, paga a nossa comida”. Então nada mais justo que ter padres que tenham cultura, padres que saibam o que vão falar e que realmente estudem e possam levar esse estudo para o povo, fazendo um trabalho melhor nas pastorais das nossas comunidades. Isso é essencial.

Pejoteiros Santos: Se ser padre é bom, o que te fez ter tantos cabelos brancos?

Pe. Alex: Ser padre é bom, mas tem suas vantagens e desvantagens. Os cabelos brancos que o digam, como você mesmo coloca na pergunta (risos). São fruto logicamente do processo de envelhecimento natural, afinal não sou nenhum moleque, tenho 43 anos…mas também sem dúvida nenhuma é o nível de estresse. Então você esquenta a cabeça, sem dúvida nenhuma. Tem pessoas que são mais fáceis de lidar, outras são mais complicadas…e você mediar conflitos com pessoas que acham que são donas das pastorais ou donas das comunidades é bem difícil. Tem suas vantagens ou desvantagens como tudo na vida. Mas é bom ser padre, eu gosto! Por mais que tenha as dores de cabeça, por mais que haja as dificuldades, é algo que eu gosto de fazer, é algo que me dá prazer. Vale apena ser padre, sem dúvida nenhuma, mas pra isso tem que ter vocação. Se não tiver vocação você acaba sucumbindo pelo meio do caminho.

alex

“Pe. Alex…eu sou seu pai!”

Pejoteiros Santos: O que costuma fazer quando não está estudando, celebrando ou atendendo a comunidade? Qual o seu hobbie? Eu lembro que o senhor manja um pouco de cultura nerd…

Pe. Alex: Eu gosto muito de andar na praia nos meus dias de folga, coisa que eu não ando fazendo por causa do mestrado…gosto muito de ler, não só artigos de filosofia, teologia e psicologia, eu gosto muito de ler de um modo geral! Gosto de ler livros de suspense, romance. Eu tenho um pouco de cultura nerd. Sou fã incondicional de Star Wars, dos personagens da DC, principalmente o Batman, o Superman…alguns da Marvel também, tipo o Homem-Aranha. Então eu sou meio fruto de cultura nerd dos anos 1980 (risos). E acho que a história faz parte do ser humano. O ser humano tem que respeitar a sua trajetória histórica e não esquecer, né? As coisas que vivenciou. Acho muito importante isso. Cada ser é fruto da sua época, é fruto da sua história. Eu sou uma pessoa de hobbies simples.

Pejoteiros Santos: O senhor sabia o que estava fazendo quando topou aturar uma penca de pejoteiros durante uma semana inteira de Missão Jovem?

Pe. Alex: A resposta é que eu não tinha muito conhecimento da Pastoral da Juventude. Tá sendo um processo novo, pra mim, tô tendo conhecimento agora de como funciona, as pessoas tem entrado em contato com vocês e o feedback tem sido muito positivo, posso dizer isso. Então, é importante ter o jovem dentro da Igreja, eu sempre trabalhei com jovens quando seminaristas e é muito triste você não ter jovens dentro de uma paróquia, dentro de uma comunidade. Jovens são o futuro, são como a força motriz da Igreja, nós não temos como seguir adiante sem jovens. E hoje os jovens estão tão perdidos, nada melhor do que acolhe-los, com dignidade, cuidado, para construir um mundo melhor, principalmente com essa cultura de corrupção que nós estamos vivendo no país. Não adianta mudar a cabeça dos velhos, nós temos que mudar a cabeça dos jovens! Uma geração que mude a mentalidade e deixe a “Lei de Gerson” de lado, é uma perspectiva muito boa para a sociedade brasileira e nada melhor que o jovem pra falar com outro jovem. Daí a importância da PJ. De ir ao encontro dos jovens e falar na linguagem deles, o que muitas vezes a gente não consegue.

Pejoteiros Santos: Padre, vamos falar sobre a descoberta da sua vocação, pois é um tema que sempre rende histórias interessantes. Conta um pouco sobre as suas origens e o que diria a um jovem que questiona a sua vocação.

Pe. Alex: A vocação surgiu cedo, eu comecei a sentir os primeiros sinais aos 14 anos, mas aí eu comecei a namorar e vida que segue. Depois de alguns anos, quando eu estava com 25 ou 26 anos, eu estava no término do relacionamento que para mim seria o relacionamento da minha vida. Ele acabou e começou a renascer aquilo que tinha se dado dez anos antes. Aí, eu optei por fazer acompanhamento vocacional, só que o meu grande problema era um: eu sabia que padre não poderia casar, logo padre não poderia ter filhos e eu sempre gostei muito de crianças, né? Então esse foi um primeiro problema, pois ao mesmo tempo que sentia o “chamado”, eu queria ser pai. Aí eu fiz o acompanhamento vocacional um ano, não senti segurança para dar continuidade e resolvi fazer mais um, pois meu medo era que aquilo fosse uma fuga. No meu segundo ano, senti Deus colocar em meu coração que eu não seria pai de um ou dois filhos, eu seria pai de muitos filhos. A partir daquele momento eu já estava pronto para entrar no seminário, os próximos meses na sequência foram de preparação, de falar com meus pais, isso, aquilo etc. Então a minha vocação nasce no seio da comunidade, né? Eu sempre digo que minha influência foi minha mãe e os amigos da Igreja, pois quando a minha mãe me colocou na catequese eu já tinha doze anos, tinha tamanho de adulto, só não tinha cabeça, mas o corpo era quase. Eu  virei e falei para minha mãe que eu não iria para catequese com um bando de criança do meu lado, pois eu tinha a altura da catequista. Aí, o que aconteceu? Eu falei para minha mãe que se ela me levasse eu iria fugir. Ela foi e me levou na São Vicente Mártir, minha paróquia de origem, e ficou as duas horas na porta, com medo que eu saísse. Na outra semana em que ela me levou, eu disse: “Não precisa ficar esperando, eu não vou fugir mais não”. E a partir daquele momento eu nunca mais abandonei a Igreja. Eu fiquei 16 anos trabalhando ativamente em todas as pastorais, com os jovens, depois na coordenação pastoral da paróquia, grupo de oração, etc. Minha vocação nasce desse convívio, principalmente da minha relação com o Pe. Paulo Horneaux de Moura, que era o meu padrinho de Crisma. Eu tinha muito contato com ele e ele tinha um modelo de padre acolhedor, o que me ajudou muito também. 

Pejoteiros Santos: O Brasil vive um momento ético, político e econômico dos mais delicados de sua história. Qual é o papel da Igreja diante dessa realidade?

Pe. Alex: (Demora um pouco para responder) Olha…a crise, pensando, é uma crise existencial, sabe? É muito mais profunda, de valores morais e éticos. As pessoas estão muito desencantadas com a vida e com as situações. É uma crise de princípios, como eu falei naquela outra questão, a “Lei de Gérson”, sempre querendo tirar vantagem. E isso tem influenciado muito as futuras gerações, pois o exemplo a gente leva de casa. Então, se você vê seus pais fazendo alguma coisa errada, você vai fazer também, pois seus pais são o exemplo, o modelo a ser seguido. O modelo do menino é o pai e o modelo da menina é a mãe, tanto que a psicologia freudiana, a psicanálise, vai dizer que o homem procura na mulher a mãe e a menina procura no marido o pai. São os reflexos, e quando não há honestidade, não há valores éticos dentro da família, os filhos também não herdam esses valores. O meu grande receio é que as pessoas se afastem da política por causa disso, e aí fica uma coisa muito complicada. O que falta no brasileiro hoje é cidadania, isso na minha visão. É eu entender que o espaço é de todos, não só meu. Muitas vezes as pessoas criticam os políticos por elas quererem fazer as mesmas coisas que eles fazem. Um dia desses eu vi um vídeo no facebook de uma rádio de Sorocaba em que eles faziam uma pegadinha, onde uma pessoa estava na rua falando ao celular e deixava cair a carteira. 70% das pessoas não devolviam a carteira, ficavam com ela. Que moral eu tenho para reclamar de político corrupto se eu faço a mesma coisa? “Ah, eu enganei o trouxa!”. As pessoas tem que perder essa mentalidade! Por exemplo: vá na praça de alimentação. Quantas pessoas vão jogar o lixo, depois que elas comem, no lugar certo? Vai por mim, são poucas. Nós não temos essa cultura de cidadania, de entender que a Classe Política está lá para me representar, e que se não fizer isso direito, não terá mais o meu voto. Mas muita gente vota para ganhar benefícios, em troca de cinquenta reais, em troca de dentadura, etc. Por exemplo, a vice-prefeita, que era da minha paróquia (Profª Lurdinha Oliveira, eleita vice-prefeita por São Vicente no ano passado), quando ganhou, quantas pessoas não foram atrás dela pedir emprego por votarem nela? Peraí, mas qual o sentido disso? Você votou nela para ela te representar, não para ganhar emprego, meu filho! A missão da Igreja é esclarecer para as pessoas que isso é um problema de foro interno, no sentido de que as pessoas tem que se conscientizar a fazerem o que é correto. 

*Para quem não conhece, a tal da Lei de Gérson:

Pejoteiros Santos: Rapidinhas. Agora vamos separar os homens dos meninos. Nescau ou Toddy?

Pe. Alex: Toddy.

Pejoteiros Santos: Coxinha ou Brigadeiro?

Pe. Alex: HAHA…brigadeiro.

Pejoteiros Santos: Biscoito ou Bolacha?

Pe. Alex: Bolacha.

Pejoteiros Santos: Star Wars ou Senhor dos Anéis?

Pe. Alex: Sem dúvida…Star Wars!

Pejoteiros Santos: Feijão por baixo ou por cima?

Pe. Alex: Por baixo!

Pejoteiros Santos: Churrasco ou comida japonesa?

Pe. Alex: Olha, por mais que eu evite, churrasco.

Pejoteiros Santos: Messi ou Cristiano Ronaldo?

Pe. Alex: Nenhum dos dois.

Pejoteiros Santos: Futebol na praia ou Netflix?

Pe. Alex: (Risos) Netflix!

Pejoteiros Santos: São Pedro ou São Paulo?

Pe. Alex: Paulããããããooo!

Pejoteiros Santos: São Francisco de Assis ou São Tomás de Aquino?

Pe. Alex: Francisco de Assis, sem dúvida nenhuma!

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