#GRITODOSEXCLUÍDOS: Resenha com o Profº Ricardo Galvanese

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gritoNo dia 7 de setembro, a Diocese de Santos em comunhão com toda a Igreja no Brasil, vai realizar a 23ª edição do Grito dos Excluídos, uma atividade organizada pelas pastorais juntamente com as centrais sindicais e movimentos sociais. O tema esse ano é “Vida em primeiro lugar” e o lema é “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”. Na Baixada Santista, terá início às 13h na Praça Portugal em Cubatão, com caminhada até a Praça Frei Damião, prevista para começar as 16h. Antes do Grito, no entanto, a PJ Santos realizará o Pré-Grito Diocesano dia 27 de agosto, na Paróquia Senhor dos Passos, Boqueirão, com início as 14h.

Preparando o espírito para o Grito dos Excluídos, batemos um papo com o Mestre em Filosofia e eterno pejoteiro, Profº Ricardo Costa Galvanese. Com cinquenta e um anos, vinte e cinco deles lecionando na Unisantos, Profº Galvanese participou da Pastoral da Juventude ainda na década de 1980, integrando a CODIJUV na sua retomada após anos de suspensão dos trabalhos. “Foi um período extremamente rico da minha vida. Depois da Pastoral da Juventude eu entrei para o seminário, queria ser padre, mas depois discerni minha vocação e descobri  que era mesmo como leigo que deveria atuar. Estou assim até hoje. Alimento a minha existência da fé em Jesus Cristo”. Entre os professores da universidade, se destaca por promover debates, fóruns e palestras dentro do espaço do campus, uma forma de fortalecer o papel social da instituição. Em uma explicação sobre Hobbes, Rousseau e outra, frequentemente é perguntado sobre a política nacional em suas aulas. “Galva” nunca esconde os seus posicionamentos, nem repreende os de seus alunos, que se sentem a vontade para falar. Também costuma sempre falar de maneira entusiasmada em sala de aula, o que revela um determinado espírito jovial, que sua fala deixa pistas: “A experiência na Pastoral da Juventude marcou a minha personalidade, marcou a minha existência e de certa forma se prolonga até hoje”. Por sua identidade com a Igreja e militância, eu e o Guilherme Reis trocamos uma ideia nada formal com ele no último dia 17, logo após a abertura do Fórum Social da Baixada Santista, realizada no Campus D. Idílio, prédio da Unisantos.

Pejoteiros Santos: O que vem primeiro? O Mundial do Palmeiras ou o fim da corrupção?

Profº Galvanese: Olha…considerando o passado, eu acho que o Palmeiras leva essa antes, viu (risos)? Independente de quem torça para qualquer time, a corrupção está, pode-se dizer assim, entranhada nas estruturas de poder do Brasil. Isso não é de agora, só está vindo atona. Mas a gente já sabe dessa estrutura há muito tempo. Enfim, existem balelas por aí de que o Brasil era honesto em outras eras, mas a gente tem um problema de honestidade. Pode ser um problema de identidade cultural, você vai encontrar corrupção desde o sindico do prédio até o presidente da República e, os discursos inflamados, até mesmo moralistas, muita vezes encobrem uma prática extremamente desonesta.

Pejoteiros Santos: O Grito existe há 23 anos e até hoje a gente continua gritando. Quando vamos parar?

Profº Galvanese: Pra falar a verdade…acho que nunca. Mas claro que existem gritos de alerta, gritos de denúncia, mas também existem gritos de anúncio. O Grito dos Excluídos é simultaneamente um grito de denúncia das estruturas de opressão que existem, mas é também um grito de esperança de uma sociedade nova, mais justa e igualitária, sociedade essa que é, digamos assim, o motor que nos move. Acho que a gente em determinadas épocas grita por situações diferentes, né? Hoje a gente precisa gritar no sentido de denunciar essas estruturas de exclusão, de concentração de renda que vão se intensificando no país e que hoje passam por um momento extremamente grave. Ou seja: perdas de direitos da classe trabalhadora; terceirização; essa reforma trabalhista extremamente perversa e que foi redigida nos escritórios daqueles que detém o poder econômico e que nos próximos anos vai mostrar a sua cara com um intenso processo de pejotização da classe trabalhadora, de perda de direitos…sendo que ao mesmo tempo a gente ta com um congelamento das politicas sociais, que há muito custo a gente conseguiu avançar um pouquinho, não muito. E isso a gente já tá vendo. Tá faltando pra saúde, tá faltando para a educação, remédio pra população, tem a reforma da previdência que estão tentando impor de qualquer custo…enfim. Então, eu acho que tem muita coisa pra gente gritar.

Pejoteiros Santos: A PJ Nacional e a CNBB se posicionaram contra o impeachment e contra as reformas. Vários intelectuais associam o impedimento as reformas impopulares subsequentes. Qual a sua avaliação?

Profº Galvanese: Eu acho que há vinculação sim. Na realidade, o impeachment da presidente Dilma não veio por conta do Caixa 2, do financiamento indevido…isso havia, tava errado, mas a questão não foi essa. Ingenuidade achar que foi isso, né? Até porque se o problema fosse honestidade, corrupção, relação promíscua com o capital, com as grandes empreiteiras, etc, o povo tinha que estar na rua até hoje, né? Então, o que está se vendo é que a vinculação do atual presidente da República com esses esquemas é inegavelmente maior que a vinculação da presidente Dilma com esses grupos. Agora, se a indignação da classe média fosse mesmo com a situação do país, tinha que estar agora na rua pedindo o afastamento do presidente, bem como contra a posse do Rodrigo Maia, que foi denunciado nos esquemas de corrupção. Então, na realidade, não houve nenhuma revolução no sentido de uma consciência moral cívica maior no Brasil na época do impeachment. O que de fato houve, foi que os setores da classe econômica, da classe dominante no Brasil, não se sentiram adequadamente contemplados nas suas demandas, especialmente no setor financeiro, setor rentista, que tiveram, pode-se dizer assim, seus interesses levemente prejudicados, né? Você tem uma estrutura histórica dual de desigualdade no Brasil e uma concentração da renda violenta, e isso, podemos dizer, é o elemento que estrutura as nossas relações, as nossas instituições políticas e econômicas. Na realidade, o que a gente observa agora é que as reformas é o que eles pretendiam. Reforma Trabalhista, Reforma da Previdência, a garantia da continuidade do financiamento público da especulação privada…isso tudo está correndo muito melhor com o governo Temer, tanto que o que se fala no mercado financeiro é que, eventualmente, pode até o Temer sair, desde que a equipe econômica se mantenha. Você pega os meios de comunicação social, a Revista Veja, Jornal Estado de São Paulo, Folha de São Paulo…Globo, Bandeirantes, Record, SBT…o discurso é único. Todos são unânimes em elogiar a equipe econômica. E aí é que está o “x” da questão. O que a população não conseguiu entender é isso. Não é uma questão de moralidade ética ou moralidade política. É questão de quem está preocupado com o país. Por isso tudo, é indissociável o impeachment das reformas chamadas estruturais, que na verdade representam um grande retrocesso. Houve um pequeno avanço, volto a insistir. Afinal, a gente não teve no Brasil propriamente um governo de esquerda, mas um governo de centro-esquerda que possibilitou algumas reformas sociais, algum processo de inclusão social bastante tímido, até porque ali havia a ideia de fazer uma “conciliação de classes”, não entrar em confronto direto com o grande capital financeiro, com os grupos que detém o poder agrário no país, uma tentativa de gerar uma certa inclusão social sem acentuar a conflitividade social. E o fato é que a classe dominante no Brasil é extremamente voraz e não aceita nem sequer fazer essas pequenas concessões que ela fez.

 

Profº Galvanese

Professor em sala de aula, todo enrolado tentando explicar a bizarrice que é a política brasileira.

Pejoteiros Santos: As chamadas reformas estruturais afetam principalmente a juventude. O que o senhor diria para esses jovens, especialmente os de grupos de base?

Profº Galvanese: Olha, eu diria o seguinte: que a PJ tem um papel histórico fundamental. Na minha época, a PJ desempenhou um papel importantíssimo na redemocratização do Brasil. A gente estava nas manifestações de rua, nas manifestações das “Diretas”, a gente atuou intensamente…pode-se dizer que a Pastoral da Juventude ajudou a escrever a Constituição Cidadã de 1988. A gente enviou representantes das diversas dioceses com demandas populares e sociais que foram inseridas na Constituição. Então, digamos assim, tem uma assinatura da Pastoral da Juventude nela. A gente atuou na época junto do movimento que tinha, da “Plenária Pró-participação Popular na Constituinte”. Então, você compunha os chamados “plenarinhos”, se produziam propostas para o Brasil, etc. Aquele foi um momento até mesmo dramático, a gente tava reconstruindo o Brasil que havia sido tomado por forças do âmbito militar e da classe dominante, que rasgaram a nossa democracia, destruíram nosso sistema constitucional, centraram renda…e a gente conseguiu fazer aquilo e desempenhar um papel importante. Acho que hoje a juventude católica, a PJ e, em um contexto maior, a Igreja no Brasil, tem um papel fundamental de fortalecer novas estruturas, criar novas formas de participação social. É esta participação social que pode, digamos assim, inibir a ação devastadora da classe dominante no campo politico, no sentido de criar alternativas. Acho que hoje, a renovação das estruturas politicas brasileiras passa pela juventude, pela Pastoral da Juventude. Acho que a Pastoral da Juventude tem que levar isso muito a sério, tem uma contribuição importantíssima para dar, no sentido da construção de um novo horizonte para a política brasileira. Acho que a juventude cristã, a juventude católica e a juventude em geral não são só o futuro, ela já tem um grande potencial de construção do presente. E isso tem ficado claro na grande atuação que a juventude tem tido nos movimentos de rua, em ocupação de escolas e de luta por inclusão social. A juventude tem um papel insubstituível e é fonte de esperança para todos nós.

Pejoteiros Santos: Rapidinhas. Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino?

Profº Galvanese: Olha, gosto muito dos dois, mas confesso que o Santo Agostinho toca mais a alma (risos).

Pejoteiros Santos: Foucault ou Karl Marx?

Profº Galvanese: Os dois e muito mais (risos).

Pejoteiros Santos: Gil ou Caetano?

Profº Galvanese: Os dois e muito mais (todos riem).

Pejoteritos Santos: D. Hélder Câmara ou D. Paulo Evaristo Arns?

Profº Galvanese: Esse, com certeza os dois. Espetaculares, tive a honra de entrevistar pela Pastoral da Juventude o D. Helder Câmara e devo ter essa fita em algum lugar, entrevista que ele deu quando foi homenageado na Unisantos, lá na década de 1980. Então, os dois pra mim foram referências fundamentais na minha vida, na minha juventude e até hoje.

Pejoteiros Santos: Temer ou Cunha?

Profº Galvanse: Nossa Senhora! (risos) Espero que os dois possam terminar os seus dias na cadeia.

Pejoteiros Santos: Jair Bolsonaro ou Olavo de Carvalho?

Profº Galvanese: Olha (ri e logo fica sério), eu só espero que Deus tenha piedade da alma deles quando julga-los.

Pejoteiros Santos: TFP ou MBL?

Profº Galvanese: Pode-se dizer assim, a reedição daquilo de pior. De mais rançoso, de mais conservador, e acima de tudo o que causa mais indignação para o cristão. O cristão é o espirito de compaixão, de generosidade de senso de partilha, de amor ao próximo, de tolerância. Então…Jesus nunca foi um moralista, nunca foi um exemplo de violência, muito pelo contrário. O que a gente encontra em Jesus é amor, ternura, fraternidade, e é por isso mesmo que vendo o Homem de Nazaré a gente enxerga o Deus Todo Poderoso. Então, esses dois movimentos são figuras lamentáveis, em meio a nossas referências culturais e sociais no Brasil. Espero que essas pessoas se convertam ao amor, a generosidade, a solidariedade e acima de tudo, a igualdade, né? Todos somos iguais perante Deus e quem luta por construir desigualdades, por reforçar divisões, por construir muros, por gerar segregações não está imbuído do espirito de Deus. O espírito de Deus é aquele que desperta em nós o senso de igualdade, pois nós somos iguais enquanto filhos de Deus. Só há um ser superior. O único ser superior é Deus. E Deus é superior principalmente porque ele é superior no seu amor.

Pejoteiros Santos: Deixe uma mensagem para os participantes do Grito.

Profº Galvanese: Gritem muito, pois o Brasil precisa da sua voz!

*Gines Salas.

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