Na profética mística do Bem Viver

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Nunca fui do tipo que sai abraçando tudo que aparece sem olhar crítico. E pra eu dizer que sou fã de alguém ou de alguma coisa, é um custo. Minha personalidade mais “racional” nunca permitiu reações muito passionais, puramente instintivas.

Mas eis que, no final da adolescência, eu me inquietava mais com as injustiças e queria me engajar em algo prático, lutar por um mundo melhor; por outro lado, buscava inconscientemente algo que me transcendesse, que me falasse ao coração, me fizesse maravilhar com a vida e ter olhar poético. Eu precisava arriscar, fazer pelos outros um pouco do que fizeram por mim. Também precisava de algo espiritual que desse sustento a isso.

Daí eu conheci a PJ.

Logo nos primeiros eventos, me permiti ser tocado por essa mística libertadora, profética, que misturava fé e política de uma maneira quase mágica, corpórea, tão terrena e tão sublime. E de repente eu me via junto a pessoas com histórias e ideologias tão novas, que me sentia obrigado a questionar as crenças e dogmas que eu trazia até então.

Foi um misto de sensações: a de pertença, porque aquela pastoral era minha verdadeira identidade, a que eu buscava há tempos; a de novidade, porque também fui muito mudado por tudo o que ela me propôs e apresentou; a de paixão, finalmente, mesmo guardando sempre aquela saudável resistência crítica de não me jogar no escuro, sem calcular os riscos.

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E nesse último feriado de independência eu parti com a mochila cheia de incertezas (e com outras tantas certezas) para o 2º Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora. Lá pude experimentar novamente esse misto de belas sensações, mas de um modo mais intenso e radical, junto a pessoas de diferentes religiões, identidades de gênero, orientações sexuais, etnias, cores, ideologias… Foi desafiador, forte, profético, belo, incomodava e desacomodava.

Porque muitas vezes os que deveriam receber um olhar samaritano das igrejas cristãs são justamente aqueles que se sentem por elas afastados, condenados, perseguidos ou mesmo esquecidos. Eles e elas têm rosto: são os encarcerados e as encarceradas, favelados e faveladas, os diversos grupos LGBTI, os homens e as mulheres de religiões de matriz africana, os povos indígenas, aqueles e aquelas que aderem a ideologias contraditórias com nossos dogmas, os e as sem-terra e sem-teto, o povo de rua…  Por causa do medo de errar, de ofender a Deus, de pecar, corremos o risco de cair no perigoso farisaísmo e esquecermos o Evangelho que nos obriga ao encontro amoroso com essas gentes, nossos irmãos e irmãs.

A maior graça que pedi e alcancei do “Eterno Amor” foi a de acolher cada experiência de coração aberto: cada nova pessoa que conhecia, cada reencontro, roda de conversa, momento de espiritualidade, cada fala, posicionamento e reflexão. E, talvez pela primeira vez, entendi profundamente a radicalidade evangélica expressa nos versos de “Pão de Igualdade”:

21728753_232934380564714_3583314013135270428_o“É Jesus este pão de igualdade

Viemos pra comungar

Com a luta sofrida de um povo

Que quer ter voz, ter vez, lugar

Comungar é tornar-se um perigo

Viemos pra incomodar

Com a fé e união nossos passos

Um dia vão chegar”

Aquele galpão abafado de um centro comunitário de Poá permitiu que os e as sem voz, sem vez e lugar manifestassem suas lutas, que também devem ser nossas. As pessoas ali presentes puderam experimentar a comunhão proposta por Jesus Cristo, caminhando lado a lado, com os passos firmes no ritmo da ciranda da vida, buscando o Bem Viver. Incomodando, um dia chegaremos. Juntos. Ubuntu.

Que essa experiência não se resuma a um feriado ensolarado de setembro pra se guardar na memória. Que ela seja o fogo sagrado a nos mover para a luta. A água sagrada a nos purificar. O vento sagrado a nos refrescar. A terra sagrada onde fincamos nossos pés. Todo dia.  Agradeço a companheira Mariana por partilhar comigo os caminhos de ida e volta, os risos, sentimentos e reflexões. Agradeço à família que me abriu seu lar, os queridos Maria Lucia e Zaqueu. E à Luz Divina, pai e mãe, eterno amor. Amém.

Rodrigo Staudemeier Gonçalves

 

 

 

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