As 5 Heranças de Dom Helder para a dimensão espiritual

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Marcelo Barros revela que o contato com Dom Helder o fez perceber a possibilidade de explorar melhor as dimensões da espiritualidade, de modo que, ao ler seu livro “Dom Helder – Profeta para os nossos dias”, é possível notar um conjunto de 5 grandes heranças:

(Este texto faz parte de uma sequência que se inicia aqui. Caso você ainda não tenha lido essa introdução, recomendo que o faça para melhor compreender o que segue).

1- A primeira herança deixada por Helder é a de que não é apenas possível, mas necessário, viver uma espiritualidade encarnada, que faça uma síntese entre a devoção e a atuação política.

Marcelo confessa: “No mosteiro, me ensinavam que o essencial era o espírito e que a vocação do monge não era o social. Mas eu não concordava com aquele ensino. À medida que fui entrando em contato com Dom Helder, fui descobrindo que se pode viver a fé e a mais profunda espiritualidade a partir da opção social de solidariedade aos oprimidos do mundo e, mais ainda, da comunhão amorosa com eles, indo até o ponto de tornar-se um deles”. Também afirma que o Dom “sempre procurava ligar essa mística do Cristo na eucaristia à profunda convicção da presença divina nas pessoas pobres e marginalizadas. Sofria quando percebia que os cristãos dividiam as coisas”.

Por fim, cita Helder: “A esperança na vitória e a confiança em perseverar no caminho nunca poderão vir apenas de uma análise da realidade. Elas vêm da nossa fé no amor divino presente no mundo e atuando nas pessoas” e conclui: “Não desligue sua ação solidária e o seu engajamento por um mundo novo de uma busca interior pelo sentido mais profundo da vida, uma busca de unificação interior e de como viver a energia melhor que você tem dentro de si mesmo/a”.

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2- A segunda herança é a de uma espiritualidade contemplativa, que se permite o encanto com a criação divina, com o mundo e as pessoas.

Marcelo conta sobre o dia em que Dom Helder lhe apresentava o jardim da Igreja das Fronteiras, onde o arcebispo foi morar: “Ontem à noite, tentei conversar com a formiga que achei que era a general aí desse exército. Fiz com ela um pacto. Deixo que devorem aquela pequena bananeira que nasceu deslocada ali no fundo, mas, por favor, respeitem a fragilidade da roseira. Hoje, pela manhã, orei aqui o Cântico das Criaturas e nele incluí as formigas para convencê-las a serem pacíficas. Será que vão me atender?” e avalia: “Quando criança, brinquei muito com formigas, mas nunca imaginei ligar isso à espiritualidade. Penso que essa relação franciscana com todas as criaturas foi uma constante na vida do Dom”.

Marcelo percebe também que “a relação com a natureza e com as plantas e animais nos humanizam e nos garantem um bom equilíbrio emocional, mesmo quando enfrentamos desafios difíceis e exigentes” e finaliza: “Podemos dizer que o cuidado coma natureza é uma das heranças de Dom Helder para a humanidade atual. Ele insistia que as soluções políticas e técnicas são importantes para restituir à natureza a integridade que a técnica moderna tinha roubado. Entretanto, não bastavam esses recursos científicos. O Dom estava convencido de que a base do cuidado com a natureza tinha de ser uma espiritualidade que criasse uma nova cultura de amor e veneração do ser humano pela vida e pelas condições de todo ser vivo”.

HOJE ME PERGUNTARAM SE EXISTE UM CÉU PARA OS PÁSSAROS E PARA AS FLORES… PÁSSAROS E FLORES PODERIAM PERGUNTAR SE É POSSÍVEL UM CÉU SEM ELES…

3- Outra herança deixada pelo Dom é a de que devemos ser pessoas esperançosas e otimistas, com uma fé profunda no “impossível”, que ousam sonhar, planejar e articular grandes projetos.

Mais que fazer reflexões e análises, Marcelo cita o próprio Dom: “Esperança sem risco não é esperança. Esperança é crer na aventura do Amor, jogar nos homens, pular no escuro confiando em Deus”; “Sonha, sem medo, sem limites, sem censura, e põe teus sonhos a serviço da monotonia cotidiana, da mesmice cansativa, da eterna fragilidade, da mediocridade humana”; “O segredo de ser sempre jovem – mesmo quando os anos passam, deixando marcas no corpo – o segredo da perene juventude da alma é ter uma causa a que dedicar a vida” e “Quando se fala em causa a que dedicar a vida é óbvio que é preciso distinguir entre causa e causa. Abraçar uma grande causa, ser-lhe fiel, sacrificar-se por ela, é importante como acertar na escolha da vocação”.

PODES RIR, GARGALHAR, VENDO-ME ÀS VOLTAS COM O INFINITO, QUERENDO CARREGÁ-LO QUANDO O INFINITO ME ESMAGA E NEM TENHO FORÇA PARA ERGUÊ-LO… NEM IMAGINAS QUEM DENTRO DE MIM ULTRAPASSA OS LIMITES, ROMPE AS BARREIRAS, ATINGE AS DIMENSÕES DE DEUS.

4- A quarta herança que podemos extrair da espiritualidade de Dom Helder é o seu exemplo de muitas horas de vigílias e o cultivo do silêncio, da interioridade e intimidade com Deus. Essa interioridade, longe de ser individualista, se abria para o mundo inteiro e todos os seres vivos.

Marcelo alerta: “Às vezes, a intimidade parece oposta à abertura ao coletivo. Em toda sua vida, Dom Helder provou que conseguia harmonizar bem o gosto pelas relações humanas, especialmente, o frequentar as multidões com um profundo e constante cultivo da espiritualidade” e traz o alerta de Helder: “Aprende que não basta calar para atingires o silêncio… Enquanto os cuidados te agitam, ainda não penetraste na área do grande silêncio. E aí, somente aí, se escuta a voz de Deus”.

Sobre as vigílias, Marcelo conta: “Não sei desde quando, Dom Helder tinha o hábito de, a cada noite, levantar às duas e meia da madrugada para orar, refletir e fazer vigílias. Quando o Dom falava em vigílias, eu, monge beneditino, imaginava que ele ia à capela, orava salmos e meditava o Evangelho. De fato, ele fazia isso também. Mas o eixo principal da Vigília era um profundo encontro consigo mesmo. Uma vez, escutei-o dizer que a madrugada era o tempo que ele reservava para si mesmo como condição para o encontro com Deus” e deixa que o Dom conte também: “Durante a minha vigília, procuro reconstruir a unidade em Cristo. Com ele, revivo os encontros do dia anterior. Reencontro aquela mãe de família que me falou dos seus problemas com o marido, com os filhos, ou me fez saber da fome em sua casa. Através dessa senhora que conheço pelo nome ou do trabalhador que hesitava em me dar as mãos porque as tinha sujas no trabalho, através desses irmãos alimento a comunhão com todos os empobrecidos da humanidade e oro ao meu Senhor”.

VEM, SENHOR, VEM! NÃO TE PEÇO A VINDA À TERRA, ONDE CHEGAS EM CADA MISSA, ONDE ESTÁS EM CADA SACRÁRIO, ONDE VIVES EM CADA POBRE… NÃO TE PEÇO A VINDA A MIM, POIS, DESDE O BATISMO SOMOS UM. A VINDA QUE TE PEÇO HOJE É A TUA VINDA À TONA DE MEUS OLHOS, DE MEUS OUVIDOS, DE MEUS LÁBIOS, DE MINHAS MÃOS… VÊ ATRAVÉS DE MIM, ESCUTA COMIGO, FALA PELOS MEUS LÁBIOS, AGE POR MINHAS MÃOS!

5- A quinta herança para a dimensão espiritual que o Dom nos deixa é a de uma intensa proximidade com os sacramentos e com a Palavra. Esse esforço por conhecer e sentir cada vez melhor as Escrituras e as experiências eucarísticas devem fazer parte da nossa luta por uma comunhão interior e exterior.

Marcelo relata que Dom Helder lia e citava permanentemente a Bíblia, e “gostava de ler para orar e pra aprender. Ele se considerava servo dessa palavra, vivia em função dela. Organizava sua vida de forma a proferi-la oralmente, mas também através dos braços, das mãos e de todo o corpo… Ele tinha consciência de que essa palavra não lhe pertencia. Vinha do Espírito e tudo o que lhe competia era ser fiel. Desde que o conheci, descobri que, para ele, o mais importante não era sua capacidade de falar e sim de escutar. Era uma pessoa que primeiramente escutava para poder proclamar o que ouvia”. Conclui dizendo: “A coerência que se deve esperar de um profeta não é a perfeição moral ou humana para então dizer a palavra, mas o fato de sentir que nele ou nela a palavra se fez carne… E, mesmo com suas fraquezas, ele se compromete a viver o que prega, antes mesmo de pedir aos outros que o vivam”.

QUE TODA PALAVRA NASÇA DA AÇÃO E DA MEDITAÇÃO. SEM AÇÃO OU TENDÊNCIA À AÇÃO, ELA SERÁ APENAS TEORIA QUE SE JUNTARÁ AO EXCESSO DE TEORIA QUE ESTÁ LEVANDO OS JOVENS AO DESESPERO. SE ELA É APENAS AÇÃO SEM MEDITAÇÃO, ELA ACABARÁ NO ATIVISMO SEM FUNDAMENTO, SEM CONTEÚDO, SEM FORÇA… PRESTA HONRAS AO VERBO ETERNO, SERVINDO-TE DA PALAVRA, DE FORMA A RECRIAR O MUNDO.

Confesso que me sinto muito desafiado pelas palavras e testemunhos deste servo de Deus. Mas as heranças continuam em próximas publicações. Até mais!

 

Rodrigo Staudemeier Gonçalves.

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