As 5 Heranças de Dom Helder para as dimensões intrapessoal e interpessoal

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Marcelo Barros explora também a maneira como Dom Helder trabalhava a relação consigo mesmo e com os outros. Esse conjunto de características pode ser resumida em 5 heranças:

(Esse texto é a segunda parte de um conjunto de heranças deixadas pelo profeta Dom Helder, e eu recomendo que você leia a primeira lista aqui).

1- A primeira herança dessa lista se refere ao modo como Dom Helder valorizava o convívio e a amizade como espaço de florescimento de relações, assim como valorizava cada pessoa na articulação de bons trabalhos pastorais.

Marcelo confessa: “Houve uma época em que, cada sermão importante, ele preparava consultando amigos e pessoas que o ajudavam. Sempre me impressionou nele sua capacidade de trabalhar em equipe e como valorizava a participação e contribuição de cada auxiliar. Tinha uma capacidade imensa de reunir para o projeto que propunha pessoas extraordinárias, de incrível capacidade, talentos muito diversificados e que aceitavam colaborar em condições pobres e quase como voluntárias”. E relembra uma resposta de Dom Helder a um grupo de jovens: “Eu quero estar junto de vocês. Antes de lhes dizer qualquer coisa e lhes dar alguma mensagem, quero ouvi-los, compreendê-los. Aceitar cada um, cada uma, com seus pensamentos, sua forma de viver e de agir”.

AS PESSOAS TE PESAM? NÃO AS CARREGUES NOS OMBROS! LEVA-AS NO CORAÇÃO!

2- Outra herança deixada pelo Dom é a de uma humilde e sincera luta interna para resistir à vaidade, ao poder e prestígio.

Marcelo afirma até que o Dom “estava sempre insatisfeito consigo mesmo. Ao mesmo tempo, era também sinal de que, interiormente, ele construía uma profunda humildade que cultivava e aprofundava quanto mais fama e sucesso conseguia”. Também conta que ele “gostava de se comparar com o burrinho que carregara Jesus na entrada de Jerusalém. Certamente, foi essa humildade que o levou a sempre perdoar as pessoas que o magoavam”.

Numa das cartas aos seus amigos íntimos, após relatar elogios recebidos, Helder escreve: “Perdoem se entro em pormenores que podem dar a impressão de que estou entontecendo e acreditando no meu próprio valor. Considerando-me centro do mundo. Deus sabe que esse perigo – graças a Ele – não existe. Acho tão desproporcionado às minhas forças o que está ocorrendo, que nem tenho a tentação de achar que sou eu. É verdade que não me descuido: redobro de orações. A Vigília se prolonga até que tombo de sono e de cansaço”.

GOSTARIA DE SER APENAS UMA SIMPLES POÇA DE ÁGUA QUE REFLETISSE O CÉU.

3- A terceira herança que podemos perceber no testemunho do Dom é a de que devemos ser nós mesmos, fiéis a nossos sentimentos e princípios. Essa autenticidade também deve se manifestar na expressão artística e na liberdade para mudar.

Marcelo conta que “ele nunca quis ser rebelde, mas sempre ousou pensar por si mesmo e expressar o seu pensamento”. Também reconhece: “Era um dos homens de Igreja mais conhecidos e estimados no mundo. Bastava se cuidar um pouco e todos fariam o que ele propunha. Mas o preço era calar certas coisas e não manifestar até o fim o que pensava. Tinha de ser diplomático e não insistir em certos temas incômodos. Ele era incapaz disso”. banner3

Sobre a capacidade de mudança, Marcelo avalia: “Até então, ele acreditava sinceramente que poderia ajudar os pobres e conseguiria transformar o mundo a partir dos ricos e poderosos. Tratava-se de convencê-los da causa social e obter a importante contribuição deles. A partir de 1964, ele começou a descobrir que nunca conseguiria mudar as estruturas a partir dos ricos […] Essa mudança profunda em suas convicções teve também repercussão no seu modo de se relacionar com os irmãos de episcopado. Ele não se posicionava mais como um poderoso que amava os pobres, mas como um cristão que se fazia cada vez mais pobre e servidor junto com todos os oprimidos e pequeninos do mundo”. E complementa: “Essa liberdade pessoal vinha pelo fato de que ele fazia questão de só possuir o estritamente necessário. E não aceitava favores nem privilégios dos poderosos para se sentir bastante livre quando sentia necessidade de criticá-los”.

No campo da arte, cita o Dom: “Indispensável é que o/a artista seja de fato artista. Não dê a impressão de defender uma tese, o que abastardaria a obra de arte. Transmita uma mensagem que, de fato, se tenha tornado carne de sua carne, sangue do seu sangue”.

4- Mais uma herança que devemos trazer para a nossa vida se refere ao modo de acolher a todos que marcou a trajetória de Dom Helder, sempre aberto a aprender dos que pensavam diferente, e escutando atentamente a todos que o buscavam (e, de modo especial, os pobres).

Marcelo diz que, para Helder, “acolher e ouvir o outro fazia parte do processo espiritual e de formar sua interioridade. Uma vez, ao chegar de um dos seus trajetos a pé, pelas ruas do Recife, escreveu um verso que contém sua reflexão sobre a interioridade aberta ao outro e sua opção de vida de ser sempre aberto. O título é sugestivo: ‘Para sempre, recebe sempre…’. O poema tem apenas um verso e diz assim: ‘Passam veículos, apressados, sem parar, usando o letreiro que jamais devo usar: lotado’”. Cita outro poema do Dom, que diz: “Se és sincero e buscas a verdade e tentas encontrá-la como podes, ganharei tendo a honestidade e a modéstia de completar com o teu, o meu pensamento, de corrigir enganos, de aprofundar a visão…”.

Marcelo ainda avalia: “Para Dom Helder, o outro era a pessoa concreta que batia em sua porta, e ele deixava tudo para atender e era também o outro como grupo ou comunidade e mesmo povo diferente ao qual ele se punha em diálogo”. Isso pode ser notado em uma carta que Dom Helder dirige a um amigo seu: “Cada vez que levo uma pessoa até a porta e volto com outra, quero atender a essa nova pessoa com a mesma atenção, quero ouvi-la, mesmo que já esteja cansado, quero tratar a cada um como se não tivesse mais nada a fazer, como se tudo fosse apenas aquela criatura. Então, enquanto vou trazendo aquela pessoa, eu brinco com o Cristo. Vou dizendo: ‘Cristo, não te apagues tanto dentro de mim! Vê pelos meus olhos, escuta pelos meus ouvidos! Toda a atenção, Cristo! Olha pelos meus olhos, escuta bem o que essa pessoa vai dizer e, se possível, fala pelos meus lábios!’ Então, o que é que acontece? Eu brinco com o Cristo. No fim do dia, quem está cansado é Ele”.

SE DISCORDAS DE MIM, TU ME ENRIQUECES.

5- A última herança dessa lista já pode ser percebida nas linhas acima, pois trata do necessário esforço para vencer a preguiça, o egoísmo, o comodismo, fazendo tudo com amor e dedicação.

Para demonstrar isso, Marcelo cita várias poesias do Dom: “Estás cercado de ti por todos os lados. Para te livrares de ti mesmo, lança uma ponte por cima do abismo de solidão que o teu egoísmo criou. Trata de ver, além de ti. Busca ouvir alguém e, sobretudo, tenta o esforço de amar, ao invés de simplesmente amar”; “Ultrapassa-te a ti mesmo, a cada dia, a cada instante… Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do mundo”; “Põe alma em tudo. Quando vires um trabalho bem acabado, uma obra feita com amor, com alma, louva Aquele que fez tudo bem e pede ao Pai que nada faças a meio ou não importa como”; “Bendito sejas, Pai, pela sede que despertas em nós, pelos planos arrojados que nos insiras, pela chama que és Tu mesmo crepitando em nós… Que importa que a sede fique e m grande parte insatisfeita? (Ai dos saciados!) Que importa que os planos fiquem mais no desejo do que na realidade? Quem sabe mais do que Tu que o êxito independe de nós, e só nos pedes o máximo de entrega e boa vontade?”; “Ama sem medir, sem calcular. Amor que exige amor, amor com dosagem, com cálculo, com restrições, com medo pode ser tudo, menos amor”.

DAS BARREIRAS A ROMPER, A QUE MAIS CUSTA E A QUE MAIS IMPORTA É, SEM DÚVIDA, A DA MEDIOCRIDADE.

Essa maneira de lidar consigo e com o próximo foi uma constante na vida do Dom, resultado de muito esforço e abertura. Mas ainda resta abordar algumas heranças. Até a próxima!

 

Rodrigo Staudemeier Gonçalves

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