O que a Quaresma tem a dialogar com as juventudes

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A Quaresma começou. Esse período de 40 dias antes da Semana Santa relembra o tempo em que Jesus foi provado no deserto, passando fome, sede e resistindo às tentações do Inimigo (Mt 4, 1-11). Os principais elementos extraídos da reflexão do Evangelho são o jejum, a oração e a penitência. Processos vividos pelo próprio Deus feito homem, e que a Igreja nos propõe como práticas de maior conversão e aprofundamento da nossa fé. Também entra como elemento importantíssimo da Quaresma a prática da caridade. Expressa em diversas passagens bíblicas, com especial destaque para o Evangelho da quarta-feira de Cinzas (Mt 6, 1-6.16-18), a esmola nos lembra principalmente a dimensão social da nossa conversão e do nosso amor.

Mas o que tudo isso diz ao coração das juventudes hoje? Em particular, o coração da pejoteira e o do pejoteiro, como acolhe a mensagem quaresmal, suas exigências e recomendações? À primeira impressão, pode ser que as pregações e doutrinas soem antiquadas, ou desconectadas da realidade juvenil. Afinal, como um adolescente das nossas periferias pode praticar a esmola, se ainda não tem emprego ou fonte de renda? Como pode uma jovem aprofundar a oração, se não lhe são ensinados métodos de rezar a sua vida? E para quê confissões, penitências, jejuns, se o mundo está aí para ser descoberto, experimentado sem culpas?deserto

Antes de qualquer coisa, é preciso reconhecer que muitas juventudes passam por verdadeiros desertos espirituais, afetivos, físicos e mentais. No campo espiritual, faltam iniciativas pastorais que dialoguem com o mundo juvenil, faltam pastores e guias dispostos a acompanhar o processo de fé dessa galera, e falta orientação religiosa nos lares. No campo afetivo, sofrem os calvários do bullying, do isolamento, da depressão, da incompreensão, das angústias e inseguranças típicas dessa fase, por não encontrar quem lhes ofereça um amoroso e generoso cuidado, mesmo na família. No campo físico, carecem de alimentação adequada e espaços de práticas esportivas. No campo mental, não são estimulados para os estudos, se deparam com sistemas de ensino desestruturados e a falta de oportunidades ocupacionais. Os sintomas dessa desertificação muitas vezes são o sobrepeso ou a desnutrição, a falta de sentido de vida, o abuso das drogas, as (auto) mutilações, as DSTs, a criminalidade, o suicídio…

Talvez para muitas e muitos jovens falte ainda um encontro mais bonito com a verdade libertadora de Jesus Cristo, um Deus que assumiu na carne os sofrimentos humanos, conhecendo nossa miséria e se compadecendo dela, nos ensinando como lutar individualmente e coletivamente para construir outro mundo possível. Afinal, se Deus sabe da minha vida, se alegra com minhas vitórias e chora com meus sofrimentos, se Ele próprio vem ao meu encontro numa linguagem que me faça sentido, fica mais fácil para que eu possa me abrir, lidar com todas as dificuldades, me juntar a outros jovens e assumir esse compromisso de fé, amor e esperança.

Uma vez com compromisso assumido, esse amigo e companheiro me convida a um amor mais ousado, radical, até revolucionário. E o itinerário proposto pela Igreja nada mais é que aceitar o convite de Jesus, aprendendo com Ele a amadurecer em todas as dimensões. Enfim, a Quaresma pode ter seu sentido renovado, e o deserto, que antes era algo imposto pelas circunstâncias, pode agora ser vivido como experiência voluntária e bonita de transformação interior e exterior.

Será que estamos levando isso tudo em consideração quando falamos de Quaresma para os jovens? E as práticas quaresmais, como podem ser redirecionadas em nossos grupos de base?

Se no âmbito da oração, aproveitássemos para vivenciar a Leitura Orante da Bíblia (LOB), ou o Ofício Divino da Juventude (ODJ)? Que tal conduzir momentos significativos de encontro com Deus na oração, seja individual ou em grupo? Montar uma celebração de Taizé, uma vigília com animação musical e artística, uma caminhada de mártires?

Se nas reflexões sobre penitência, tentássemos nos desafiar mutuamente a jejuns mais significativos e transformadores de vida? No lugar de renunciar a carne, chocolate ou refrigerante, jejuar de preguiças, egoísmos, vaidades? Ou abrir mão de fofocas, panelinhas, deboches, difamações e tudo mais que possa prejudicar nossa convivência em grupo?

Se em vez de só falar de esmola ou caridade, levássemos grupos de jovens a uma ação concreta de solidariedade? Uma arrecadação (alimentos, roupas, brinquedos), uma visita (orfanato, asilo, abrigo), mesmo assistencialistas e pontuais, podem ser um começo. Talvez sugerir gestos mais simples e cotidianos de afeto, gentileza e empatia, que mudam hábitos.cartaz_CF2019_DivulgacaoCNBB-e1530886002756

Para encerrar, vale ressaltar que a Igreja no Brasil nos apresenta a Campanha da Fraternidade para exercitar a nossa solidariedade de modo mais consciente e engajado. Esse ano o tema é Políticas Públicas, uma “caridade em tamanho grande”, como afirma nosso bispo Dom Tarcísio Scaramussa, sdb. Ele mesmo afirma que, além de gestos pontuais, a nossa ação no mundo precisa se caracterizar por ações conscientes e políticas de atendimento das necessidades do nosso povo, seja de alimentação, de moradia, saúde ou demais âmbitos da vida. Afinal, através da política, podemos atingir muito mais gente que em ações isoladas. Fazendo ainda conexão com a Campanha Nacional de Enfrentamento aos Ciclos de Violência Contra a Mulher, lançada pela PJ nacional, nos sentimos instigados a lutar especialmente por políticas públicas em defesa da vida das nossas companheiras.

Nos esforcemos, então, por viver a Quaresma como itinerário de amadurecimento pessoal e comunitário, aproveitando as oportunidades de aprender mais sobre políticas públicas e sobre como podemos deixar a nossa Terra mais parecida com o Reino dos Céus.

 

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