A imagem manchada de Cristo

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A liturgia diária sempre aponta um itinerário a ser percorrido nas Escrituras: um Salmo que se conecta com o Evangelho e com mais alguma leitura do Primeiro ou Segundo Testamento. Fazendo a Leitura Orante da Bíblia esta manhã, foi impossível evitar a palavra “trama”, explícita no Salmo 31 e no texto de Jeremias 18, 18-20, e implícita no Evangelho de Mateus 20, 17-28. Isso na minha tradução da Bíblia Pastoral.

Rapidamente veio à minha mente uma cena em que Jesus, suplicante, repetia como Davi em seu salmo:

12Pelos opressores todos que tenho,

já me tornei um escândalo;

um nojo para meus vizinhos,

um terror para meus amigos.

Os que me veem na rua,

fogem para longe de mim.

13Fui esquecido como um morto,

e estou como objeto perdido

14Ouço o cochicho de muitos,

e o pavor me envolve!

Eles conspiram juntos contra mim

e tramam tirar-me a vida.

E por que Jesus repetiria isso? A quem poderia se referir? Lembrei-me da cena que uma aluna me mostrara no celular semana passada: uma encenação (feita em 8 de março, dia internacional da mulher) de Maria abortando Jesus, tentativa lamentável de denunciar as opressões sofridas pelas mulheres no mundo inteiro. Puxei na memória todos os atos e manifestações em que uma minoria infeliz apela para espetáculos grotescos, visando a denegrir religiosos, suas crenças, seus símbolos e imagens mais sagradas. Na imagem mental que criei, parecia que Jesus chorava o escândalo sofrido pelos opressores. E como era Leitura ORANTE, eu rezava esse drama, com o coração apertado. Ao final, eu planejava transmitir para os jovens da pastoral todas as sensações e conclusões que tive ao fazer as conexões com os outros dois textos.

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E quando ia me sentar para colocar isso tudo aqui no blog, pensei em como escrever um texto que não parecesse escrito pelos tradicionais blogs católicos, conservadores em palavras e ideias. Afinal, sou um jovem pejoteiro, ia “pegar mal” escrever sobre esse assunto delicado apenas com esse enfoque.

Então lembrei que uma amiga já havia participado de uma “Marcha das Vadias” e tido contato mais próximo com outros movimentos que defendem pautas conflitantes com as defendidas pela nossa Igreja, por vezes criticando a postura das religiões. Essa amiga, apesar de também se assustar com os radicalistas que recorrem ao “terrorismo visual”, me transmitia a importância de ignorar os extremismos e perceber as justas motivações que os impulsionavam e que muitas bandeiras levantadas nesses atos e manifestações são legítimas:  bandeiras que defendem pessoas historicamente marginalizadas e vítimas de violências e mortes; bandeiras que defendem vida digna e voz para oprimidos; e essas causas não podiam ser esquecidas, deixadas em segundo plano no debate por causa de alguns atos que mancham e denigrem as imagens e símbolos sagrados do Cristianismo.

Foi o ponto que me fez olhar para o outro aspecto desses ataques sofridos por Jesus e sua Igreja. A imagem de Cristo também é manchada por alguns de seus próprios seguidores, que se dizem cristãos e falam em Seu nome. Se a religião e seus valores têm cada vez menos importância na vida da população, se Jesus tem sido cada vez mais deixado de lado e o secularismo tem entrado com força nos corações humanos, expulsando Deus e sua mensagem, será que o motivo não está também no mau testemunho dos cristãos? A música já dizia: “Quem não te aceita, quem te rejeita, pode não crer por ver cristãos que vivem mal…”

Afinal, no próprio relato de Lucas fica evidente que, antes de ser entregue aos pagãos, Jesus fora condenado à morte pelos próprios líderes de sua religião:

18‘Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei. Eles o condenarão à morte, 19e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará’.

Triste é ver causas justas sendo defendidas por ambos os lados e sendo simultaneamente manchadas pelo ódio, intolerância, indiferença e arrogância. Em vez do diálogo construtivo e da escuta respeitosa, buscando a solução dos graves problemas que afetam nosso povo, as causas em comum são esquecidas e surge um cenário de guerra. Mais triste é ver que, por ambos os lados, Jesus sai muitas vezes ferido, zombado, crucificado, tal qual no Evangelho.

Bonito é ver que a Páscoa se aproxima com a promessa da Ressurreição, de nova vida e novos tempos para nossa gente. Mas isso não se faz sem deserto, sem cruz, sem dor. Quaresma é tempo de conversão, de perceber tudo que temos feito com autocrítica, cuidando para sermos cada vez mais reflexo do amor de Deus, dando um testemunho digno de verdadeiros cristãos. Quem sabe assim cuidaremos melhor dos que se sentem desamparados ou mesmo perseguidos pela Igreja, e esses possam então reconhecer o valor da nossa mensagem. Quem sabe assim a Igreja deixe de buscar apenas o prestígio e aplausos, e passe a servir a todos como Jesus ensina no final deste trecho do Evangelho.

Por fim, sugiro o exemplo de Jeremias para aplicar essa semana:

20Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira.

Rezemos pelos maus cristãos, pela sua conversão. Rezemos pelos que mancham a imagem de Cristo e sua Igreja, sejam esses cristãos ou não. Rezemos pelos que perseguem nossa Igreja. Afinal, Deus é lento para a ira, e quer que todos se salvem.

Tretas do Carnaval

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carnavalAloha, pejoteiros!

Isso aqui esteve mais parado que fila de banheiro químico em JMJ. Mas, como tudo no Brasil-sil-sil começa depois do carnaval, com o nosso blog não é diferente. Pra tirar o atraso, vamo tentar fazer um apanhado de tudo o que rolou nesse ilustre feriado pagão…

Eita, Vila Maria!

Carnaval é a despedida da carne e vem do latim “Carne Vadis”, que quer dizer “a carne vai se embora”. Na Idade Média a Igreja decidiu incorporar as antigas festividades pagãs afim de transforma-las ao seu calendário. O Carnaval então passou a corresponder aos últimos dias antes das limitações impostas pela Quaresma, tornando-se os últimos dias que o fiel tinha para saborear a carne. Logo então usavam a data para comemorar e se preparar para o jejum. A festa foi se desenvolvendo e, no século XIII, surgiram os bailes de máscara, principalmente na Itália.

O rompimento da Igreja com a festividade, conforme revela o historiador inglês Peter Burke, se dá de forma mais efetiva no século XVI, com a contrarreforma, que moralizou o clero e deu maior importância para as práticas do período quaresmal. Já era um período em que o número de estupros, assassinatos e todo tipo de excesso tinham um aumento vertiginoso durante a festa. Além de muita bebedeira, camponeses viravam juízes por um dia e havia inclusive uma bizarra modalidade de espancamento de urso (isso é o Burke quem descreve HAHA). Da festa participavam não apenas os fiéis, mas até mesmo sacerdotes. No Brasil, o carnaval foi comemorado desde a chegada dos portugueses, popularizando-se no século XIX.

cartola

Dona Zica e Cartola: casal de mangueirenses.

Responsável por dar origem a graves problemas que vivemos até hoje, a República Velha (1889 – 1930) reconfigurou as grandes cidades. No começo do século XX, políticas higienistas viraram moda, tanto no Rio de Janeiro como em Santos. Se por um lado serviram para conter epidemias, por outro, criaram bolsões de pobreza e deram “cor” a certos bairros. A criação dos famosos canais na cidade do maior porto da América Latina retirou os negros dos cortiços no entorno e os mandou para a periférica Zona Noroeste da cidade, que naquela época já alagava (não mudou muito, né?).

Com mulatos descendentes de escravos e imigrantes pobres em bairros operários, o samba nasce marginalizado, uma mistura de ritmos africanos e europeus. Popularizando-se, torna-se o ritmo da festa que antecede a quaresma e com o investimento do caudilho Getúlio Vargas na década de 1930, vira identidade nacional. Organizam-se os primeiros desfiles na capital carioca a partir de então.

Hoje a festa é comemorada de infinitas formas e ritmos (infinitas mesmo!), conforme a região do país. O que não muda é o comportamento nas redes sociais. Toda véspera de carnaval é igual. De um lado, a galerinha que abomina a festa e de quem dela participa, compartilhando frases de santos medievais; do outro, quem a pula. O quadro em 2017 foi agravado com a notícia de que uma Escola de Samba paulistana, a Vila Maria, homenagearia Nossa Senhora Aparecida na avenida, em comemoração dos trezentos anos de sua aparição para pescadores no Rio Paraíba. Católicos mais conservadores se escandalizaram, mesmo com o aval do Cardeal D. Odilo Scherer.

A discussão é antiga. Há católicos que declaram que todo devoto deve se fechar para qualquer janela do mundo, evitando até mesmo músicas seculares (mesmo os doutores da Igreja tendo bebido da fonte de filósofos pagãos, como Platão e Aristóteles), quanto mais participar da folia. Em contrapartida, há padres que fundaram escolas de samba, como o popular Pe. Paulo Horneaux de Moura. Em 1972, quando pároco na Paróquia São Jorge Mártir, no bairro do Estuário em Santos, incentivou a criação de um bloco carnavalesco, como uma forma de atender a juventude pobre e ociosa da região. O bloco cresceu, venceu campeonatos e virou a “G. R. C. E. S. Mocidade Independente de Pe. Paulo”, uma das mais tradicionais agremiações do carnaval santista, que já esteve entre os mais populares do país. Após sofrer muito preconceito, os anos mostraram que Pe. Paulo tinha razão.

Mas e daí, cara pálida? Onde tu quer chegar?

Quero chegar que, apesar da frase chavão de São Paulo ser sempre bem-vinda em toda e qualquer circunstância (1 Cor 6, 12), não dá pra colocar todo carnaval no mesmo pacote. O carnaval de rua voltou com tudo esse ano, trazendo as famílias de volta para os festejos e isso é louvável pra caramba. Por fim, nem todo mundo pula a festa com lança-perfume, jogando bexiga com urina e usando drogas. Há os que preferem participar de retiros espirituais, há os que preferem participar do “Ba-Bahaianas” vestidos de Léo Áquila e há os que são como eu e usam o feriado para colocar em dia as séries do Netflix.

Há críticos que dizem que os acidentes automobilísticos aumentam e o número de concepções também. Quem nunca ouviu a piada de que quem nasce nos meses de outubro e novembro é filho do carnaval? No entanto, excessos de todo tipo infelizmente existem em todo feriado, mesmo os religiosos.

No sábado, cheguei em casa quando o cantor sertanejo Daniel já fazia o esquenta do desfile da Vila Maria, cantando a música composta por Roberto Carlos. O arrepio foi imediato. Eu confesso que meu receio com o desfile era grande, mas se dava por motivos heterodoxos. Na minha exigência, sempre achei indignas as homenagens feitas a “Mariamma”, até brinquei falando com um amigo (vamo combina, o filme do Murilo Rosa é tenso!). Mas conforme as alas passavam, eu me tranquilizava. A escola seguiu as orientações da Arquidiocese (inclusive quanto a vestimenta dos componentes) e as reações na internet foram em geral positivas.

vila-maria

A verdade dura é que, em um país cada dia mais protestante, a devoção mariana tem se apagado. Lembrar de Maria e seu protagonismo é culturalmente cada vez menos presente, o que é de se lamentar profundamente, já que algumas denominações chegam a lança-la no ostracismo. Portanto, os piedosos de plantão que perdoem o autor desse post, mas o desfile foi importante. Este jovem devoto que escreve, acredita com todas as forças que a aparição da Mãe de Jesus no Vale do Paraíba mudou para sempre a história do Brasil e que estranho seria se seu terceiro centenário fosse ignorado pela maior festa popular do mundo. Mariamma, que caminha e ampara seus filhos injustiçados, esteve no último sábado em meio ao povo, vista por ele. E isso compensa muito mais do que discussões eruditas de católicos na internet.

Para terminar, deixo aqui as célebres palavras do saudoso D. Hélder Câmara:

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu… Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu. Brinque, meu povo povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”

 

Mas, como diria Los Hermanos…

 

deserto

#PartiuDeserto

Todo carnaval tem seu fim. Com a Missa de Cinzas hoje, iniciasse a preparação para a semana mais importante do calendário cristão, tempo de reflexão, autorrevisão e penitência. No Brasil, a Igreja trabalha todos os anos a Campanha da Fraternidade, que esse ano tem como Tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o Lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15). Abaixo, deixo a mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2017. Valeu, cambadinha!

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

  1. O outro é um dom

A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.

A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

  1. O pecado cega-nos

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).

O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.

Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).

O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.

Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).

  1. A Palavra é um dom

O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).

Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.

Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.

Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).

Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.

Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

Vaticano, 18 de outubro de 2016.

Festa do Evangelista São Lucas

FRANCISCO

 

* Gines é pejoteiro, historiador recém-formado, portelense e membro da CODIJUV nas horas vagas.

VLWS, FLWS!

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Coordenação Diocesana, regional e assessoria leiga em reunião ampliada realizada na Cúria.

Coordenação Diocesana, regional e assessoria leiga em reunião ampliada realizada na Cúria.

“Teu sol não se apagará

Tua lua não terá minguante

Porque o Senhor será tua luz

Ó povo que Deus conduz”.

 

Era meio de semana, mais precisamente quarta-feira, estrategicamente escolhida por ser a folga do Vagner, que trabalha em um grande shopping. Eu corri logo que saí do trabalho, atrasado. Comi um pão com margarina e peguei a linha mais longa de ônibus, que liga a área continental ao Ferry Boat. A reunião era no apartamento da Nany, onde tínhamos maior liberdade para discutir até as tantas, e que ficava no bairro da Aparecida em Santos, um ponto de encontro democrático para todo mundo – menos para o Felipe, pois nada é democrático para quem mora em Itanhaém. Ao longo das duas horas de viagem, alongadas pelo trânsito na orla da praia, eu lia os textos da faculdade e contava as faltas que podia ter nas aulas de quarta nos dedos, com medo de ser reprovado por tamanha bobagem.

Cheguei 19h30. Lá estavam Vagner, Rafa (girando o cordão da chave da sua moto) e o Igor. Nany havia deixado a chave da sua casa na portaria para iniciarmos a reunião sem ela, pois chegaria mais tarde por conta do trabalho. Enquanto os outros não vinham, iniciávamos conversas paralelas sobre emprego, impeachment da Dilma e relacionamento. A Mari chegou, paramos de falar de mulher. Depois de nos cumprimentar, ela sentou no tapete e começou a brincar com a Maju, simpática cadelinha de estimação da Nany. Enquanto Maju latia, eu e os outros meninos começávamos a debater sobre qual pizza pedir. Chega a mensagem do Felipe, dizendo que não poderia ir dessa vez. Era dia de reunião paroquial em sua comunidade.

Assim que fizemos o círculo para rezarmos, a Nany apareceu. Feita a oração, iniciamos os trabalhos, entre uma piada e outra. Igor começava falando sobre um inquietante e frutífero encontro estadual que teve com os assessores da PJ no Estado de São Paulo (ele sempre chegava bem pirado desses eventos). Enquanto ele falava, o entregador de pizza apertava a campainha. A barriga vazia já implorava por aquele exemplar magnífico e gorduroso, metade portuguesa e metade catupiry, e a da Maju também. Entre uma garfada ou outra, falávamos sobre plano diocesano, sobre contato com a base e sobre a crise na prefeitura de São Vicente, que mais uma vez me deixava sem salários.

Chega o marido da Nany, um mineiro gente boa que pilota aviões, praticamente um Tom Cruise. Quando ele faziamos menos barulho, pois ele assistia Galo Doido jogar na TV do quarto.

A hora avança, mas ainda há muito o que discutir. Tentamos fechar todos os assuntos. Em vão. “É, semana que vem a gente se reúne”. “Semana que vem eu tenho prova”. “Todos estão bastante cansados. Hora de ir para casa, já são mais de 23h”.

Essa reunião não aconteceu. É fictícia. Ou melhor, é verdadeira. Um pouquinho de cada reunião dos últimos dois anos. Em dezembro de 2014 foi eleita a estrutura diocesana, para coordenar a PJ Santos nos dois anos subsequentes. Pessoas de diferentes cidades, de diferentes formações, bagagens e realidades reuniam-se, sem ganhar um centavo sequer para debater ações em prol da evangelização da juventude. Rafa esteve na coordenação anterior e era mestre em gambiarras, fruto do seu curso de engenharia e trabalho na Codesp. Vagner, tinha o dom de ser incrivelmente metódico mesmo para falar informalmente sobre o campeonato inglês ou HQs. E eu? Bem, eu nunca fui dos mais fáceis. Em comum, um ideal. Um sonho. Não éramos amigos, não começamos entrosados. Mas dávamos o melhor de si, e isso fez com que a gente aprendesse a se admirar. Como não admirar o Vagner, cidadão de Cícero Dantas (BA) e seu ímpeto de deixar sua cidade natal para construir tão jovem uma vida aqui em São Paulo e ainda ter tempo para se dedicar a PJ?

Entre erros e acertos, desavenças e alegrias, planejamentos bem ou mal executados, o que mais me marcou nessa equipe não foi a façanha de criar diretriz diocesana, de iniciar um trabalho em conjunto com os leigos da AB-C (Animação Bíblico-Catequética) ou de realizar uma semana missionária na comunidade do México 70. Foram os momentos simples, como a tremenda larica que dava no meio de uma longa reunião ampliada, realizadas a cada dois meses junto com os coordenadores regionais em manhãs de domingo.

Em uma madrugada inesperada, uma ideia inocente poderia ser a provocação necessária para se discutir tudo o que se vinha fazendo e repensar o planejamento. Cem, duzentas mensagens, áudios. E ninguém saía do celular. A fé no Cristo revelado em um retiro qualquer no CEFAS ou em uma Gincana Vocacional nos impulsionava a acreditar e lutar por uma PJ dos sonhos, ideal para a juventude. Por duas ou três vezes, houveram desavenças maiores. Mas as pazes, feitas a base de longa conversa, de modo fraterno e bem pejoteiro, tornaram-nas saudosas.

Geralmente sempre se tem na memória uma formação, onde a mística final fez soluçar. A palavra, o toque, a leitura bíblica tocou em cheio o coração, e o amor transbordou em abraços suados e lágrimas que escorriam pelo rosto, ao som do Jorge Trevisol, da Gadú, da Adélia Prado. Essa foi a sensação do último final de semana. Fecha a janela, revista o banheiro lá no fundo e recolhe o lixo dos quartos. Hora de ir embora! O sol se põe. Como em um fim de curso, quando as luzes se apagam e os jovens saem carregando as malas pela porta afora, a velha estrutura se vai e chega a nova. Jovens se tornaram adultos, com a certeza de que viveram na Igreja os melhores anos de suas vidas. Fica a saudade, a amizade e o respeito. O Espírito segue a soprar, e a levar a PJ Santos para onde a gente não entende. Para onde a gente não sabe.

*Essa (bobagem) postagem foi escrita por Gines Salas, um pejoteiro abobado.

Para não esquecer da CFE 2016: a balneabilidade das praias santistas

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Por: André Staudemeier

Quando se avalia o impacto do saneamento básico na qualidade de vida na Baixada Santista, deve-se levar em consideração, além do abastecimento de água e esgoto e da coleta de resíduos, a próxima relação destes fatores com outros aspectos diretamente relacionados à vida dos moradores da região: a balneabilidade das praias, a pesca e coleta artesanal, o pólo industrial de Cubatão e o Porto de Santos e Guarujá.

A balneabilidade (balnear = banhar; balneabilidade = qualidade de estar própria para banho) das praias de Santos será abordada em dois textos, com o segundo texto dividido em três partes.

  • Balneabilidade das praias da região

texto-1No Estado de São Paulo, a fiscalização da qualidade das praias é feita pela CETESB (denominação inicial Centro Tecnológico de Saneamento Básico, hoje Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). De acordo com o relatório anual da CETESB referente ao ano de 2014, as praias de Santos permaneceram próprias em 34 das 52 semanas desse período, representando 66% do tempo. Os critérios de balneabilidade das águas brasileiras são definidos pela Resolução 274/2000 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), e o parâmetro indicador utilizado pela CETESB para água do mar é a quantidade de Enterococcus, bactéria que se caracteriza por estar presente nas fezes de humanos e de animais e pela resistência à água salgada. Referente a esse parâmetro microbiológico, as praias são consideradas impróprias (para banho) pela legislação em duas situações. A primeira situação é quando a última amostra obtida apresenta concentração bacteriana superior a 400UFC/100mL, e a segunda é através da média das últimas 5 amostras apresentar concentração bacteriana superior a 100UFC/100mL. Quando pelo menos um desses critérios é atendido, a praia é considerada imprópria para banho.

O Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH) da Universidade Santa Cecília (UniSanta) desenvolve um projeto há dois anos para previsão da balneabilidade das praias da baía de Santos. Em paralelo, é realizado um estudo para avaliar a influência das chuvas locais na balneabilidade das praias.

  • Referência e confiabilidade

texto-1-3A engenheira civil e professora Alexandra Sampaio, juntamente com o biólogo e professor Renan Ribeiro e o aluno do curso de Engenharia Civil Matheus Ruiz, realizam um trabalho no NPH em parceria com a Praticagem de Santos para prever as condições de navegação do porto.

Obtendo dados reais sobre diversos indicadores (como índice pluviométrico, maré, altura das ondas, direção e intensidade das correntes de água e dos ventos, entre outros), os pesquisadores criaram um modelo numérico a partir dos dados históricos, que foi calibrado e validado em um software , a fim de prever com confiabilidade os parâmetros desejados pela Praticagem para controle do tráfego portuário, alcançando uma boa correlação entre dado e modelo, com grau de confiança de 95%.

  • Avaliação da relação entre balneabilidade e volume de chuvas.

Com uso do mesmo software e de fontes e ferramentas similares, o pesquisador Matheus começou um trabalho que visa a estudar a relação entre a balneabilidade das praias e o volume de chuvas acumulado.

A CETESB disponibiliza semanalmente a indicação da praia (própria ou imprópria) e também o valor numérico de Enterococcus. As medições são realizadas três vezes por semana em Santos (uma pela CETESB e duas pela prefeitura) e uma vez por semana em São Vicente, em diversos pontos.

Cruzando os dados de volume de chuvas nas horas anteriores à medição da balneabilidade, com os dados da frequência de ocorrência das concentrações superiores a 400 UFC/100mL, o pesquisador chegou a resultados expressivos que indicam uma correlação entre eles. Para exemplificar, tomando como referência as medições da Ponta da Praia, “do total de amostras realizadas, 15 mostraram-se superiores ao limite legislativo. Em 80% destas a precipitação acumulada nas 24h anteriores foi de pelo menos 10mm, e em 100% a precipitação em 48h foi de pelo menos 15mm, com valores médios de 25,87mm e 45,56mm, respectivamente, o que comprova uma relação direta entre a chuva e a alta concentração de Enterococcus”.

Por outro lado, cruzando os índices pluviométricos nas horas anteriores à medição da balneabilidade, com a informação de balneabilidade disponibilizada pela CETESB (própria ou imprópria), a correlação foi mais fraca. No período inicialmente apresentado pelos pesquisadores, de janeiro de 2014 a setembro de 2015, em 40 das 91 semanas a água permaneceu imprópria para banho. Dessas, a precipitação acumulada nas 24 horas anteriores foi superior a 10mm em 27,50%, e nas 48 horas anteriores foi superior a 15mm em 42,50%, e os valores médios de precipitação foram de 8,65mm e 18,46mm, respectivamente.

  • Por que essa diferença?

texto-1-4A primeira comparação foi com o primeiro dos critérios (concentração > 400UFC/100mL), já a segunda comparação utilizou a união dos dois critérios, ambas com medições da CETESB. Isto é, como são dois critérios de balneabilidade, o atendimento de um deles isoladamente basta para tornar a praia imprópria, sendo que o segundo critério (cálculo da média das últimas 5 amostras) tornou a praia “imprópria” muitas vezes.

Essa fraca correspondência na segunda comparação ocorre , segundo opesquisador, devido à baixa frequência de medições da CETESB e ao método de cálculo utilizado por eles para atestar a balneabilidade, que considera os valores das 5 últimas medições, o que no caso de Santos acaba por computar medições de até dez dias para trás: “Ainda relativamente a essas 40 semanas, 17 apresentaram concentrações inferiores a 100 UFC/100mL considerando a última coleta, fato que demonstra que a praia poderia estar com qualidade para receber os banhistas neste período”. Por conseguinte, o pesquisador conclui que “conhecer as condições da praia em tempo real ou aumentar a frequência de amostragens semanais poderá elevar o nível de confiabilidade das condições balneares da praia”. Crítica semelhante já havia sido feita pelos pesquisadores Silvia Sartor e Fernando Degaspari em 2000, porém desde então as medições sofreram modificações, inclusive pela modificação da norma no mesmo ano.

Outro problema é que existem muitas outras variáveis que influenciam na qualidade da água, como, por exemplo, as marés, e o número elevado de palafitas localizadas em São Vicente e em Vicente de Carvalho, que desaguam seus dejetos geralmente diretamente no canal do estuário, a leste e oeste da ilha de São Vicente, sendo carregados pela corrente fluvial até a Baía de Santos.

  • A explicação para a relação chuva-praia contaminada

A cidade de Santos conta com 7 km de praias e possui um sistema de drenagem pluvial composto por canais, dos quais seis desaguam nas praias e possuem comportas localizadas na orla e em regiões intermediárias. As comportas da orla ficam permanentemente fechadas, e a água que chega até ali é bombeada para a Estação de Pré-Condicionamento (EPC) da Sabesp através de interceptores na região da avenida da praia. Esse sistema interceptor evita que essa água escoada pelos canais, que está contaminada pela grande quantidade de lixo e fezes de animais deixadas nas ruas, chegue diretamente ao mar. Entretanto, volumes muito grandes de chuva implicam na necessidade de abertura dessas comportas (para evitar alagamentos na área urbana) e a descarga das águas de drenagem na região das praias.

  • Utilidade da pesquisa.

Diversos especialistas, baseados em pesquisas, concordam que a balneabilidade é afetada pelas chuvas que drenam a poluição da cidade para os canais. Suponha que a Prefeitura de Santos, a Sabesp, ou organizações da sociedade civil e acadêmica realizem uma campanha para redução do lixo nas vias públicas ou intervenções técnicas de saneamento dos canais (o que eventualmente realizam, como será visto em outra matéria). Como verificar a efetividade de tais medidas de redução da poluição na melhoria da balneabilidade das praias? Seria útil comparar resultados históricos aos resultados após as medidas de intervenção, a fim de conferir se tais medidas deram certo, além de confirmar se há mesmo relação entre a água de chuva carregada ao mar e a poluição das águas que banham as praias.

 

“Te dei um mundo de beleza e cores,
Tu me devolves esgoto e fumaça.
Criei sementes de remédio e flores.
Semeias lixo pelas tuas praças.” (HINO OFICIAL DA CFE 2016)

 

Principais referências:
Entrevista com pesquisador Matheus Ruiz
Artigo “A Balneabilidade Das Praias De Santos – Discussão Dos Critérios Oficiais De Avaliação”, de Silvia Sartor e Fernando Degaspari.
P.S.: após a conclusão do texto, foi celebrado acordo entre a prefeitura de Santos e o NPH para prestar serviços de previsão de balneabilidade das praias (hiperlink http://www.atribuna.com.br/noticias/noticias-detalhe/cidades/praias-de-santos-terao-previsao-de-balneabilidade/?cHash=826ac382d7f022319cae42636418d0d9), comprovando a qualidade do modelo.

* André é engenheiro formado pela Unisanta, é membro do grupo JSC da Paróquia da Pompéia e parece com o Rodrigo. 

22ª Romaria Estadual da Juventude será em São Paulo

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A Pastoral da Juventude (PJ) do Regional Sul 1 da CNBB se reúne no próximo dia 18 de setembro para a realização da 22ª Romaria Estadual da Juventude, na Praça da Sé, em São Paulo. Estima-se a participação de pelo menos 5 mil jovens, vindos dos grupos de base da PJ de todo o estado de São Paulo, para comungar do evangelho pregado por Jesus Cristo em uma grande celebração Mariana. O evento terá início às 4hs, com a concentração na praça.

A Romaria acontece anualmente, cada ano em uma região diferente do estado. Em sua 22ª edição, o encontro de jovens que buscam fazer “florescer a Civilização do Amor”, como convida o Papa Francisco, será na Praça da Sé, um dos pontos históricos mais conhecidos da cidade de São Paulo, onde fica a catedral da Sé. Além da missa e momentos de mística preparadas pela juventude, o encontro também contará com uma caminhada pela região central da cidade para pautar a luta pelos jovens e por aqueles que são oprimidos e excluídos da sociedade.

Nesse encontro o objetivo da pastoral é, além de celebrar a presença de Maria, propagar a “Igreja em saída” que é pedida pelo Papa Francisco, sendo uma Igreja Católica atuante e que rompe os muros dos templos para evangelizar e levar para todos o Jesus libertador, lutando por justiça e igualdade.

O local escolhido para a realização da Romaria não foi definido por acaso. A praça da Sé é um ambiente onde vivem muitas pessoas em situação de rua, que são marginalizadas pela sociedade. A praça também é espaço onde demonstrações artísticas gritam pelo amor e contra a exclusão.

Rezando junto com a Negra Mariama (Nossa Senhora de Aparecida), a PJ quer renovar seu compromisso pela busca da igualdade, unindo a espiritualidade com a realidade, construindo assim a chamada Civilização do Amor. A pastoral conta com a Igreja em sintonia nesse momento importante de sua caminhada, tanto em oração como em presença, para realizar o Reino de Deus na Terra.

Outras informações sobre a atividade e a PJ do Regional Sul 1 podem ser acessadas na fan page oficial da PJ Sul 1, clicando em facebook.com/pjsul1

Logo abaixo, o cartaz oficial da Romaria, e para conhecer a representação do cartaz, o porque da escolha do tema da romaria desse ano e até mesmo um breve resumo de toda a história das Romarias da Juventude, é só acessar o subsídio oficial da 22ª Romaria Estadual da Juventude, clicando aqui.

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Vamos falar de vocação…

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“Por tanto amor, por tanta emoção

A vida me fez assim

Doce ou atroz, manso ou feroz

Eu caçador de mim…”

(Milton Nascimento)

 

Você esperando o blog ser atualizado...

Você esperando o blog ser atualizado…

Aloha! Depois de um recesso não comunicado, não planejado e imoral, estamos de volta à ativa, em busca de estimular a leitura do jovem pejoteiro de Santos. A adm desta ‘bagaça’ dormiu por uns meses (mentira, tava ocupadão memo!), mas promete voltar para ficar, com textos razoavelmente inspirados. Já estamos lá pela reta final do obscuro mês de agosto, tão temido e sem feriados. No entanto, ainda dá tempo de abordar o seu significado para a Igreja: a vocação.

 

Mês em que se celebra liturgicamente a festa de São João Maria Vianney, O Cura D’Ars, padroeiro dos sacerdotes, é tempo também de rever o tão falado “Projeto de Vida”. A juventude é um período de incertezas e inseguranças quanto ao caminho a se seguir, e o grupo de base, preocupado com a formação integral do jovem, tem o dever de se preocupar com essa difícil missão, conduzindo o jovem para uma tão necessária reflexão e busca pelo autoconhecimento, levando-o a superar desafios e ouvir o coração, por meio do encontro com a pessoa de Jesus.

 

A dinâmica LOUCA do mundo atual tem tornado as pessoas infelizes. E isso quem diz não sou eu, mas os índices da OMS (Organização Mundial de Saúde), que revela, por exemplo, que 10% dos jovens no mundo sofrem de depressão. Ou seja, em uma conta fácil até para a pessoa que aqui escreve, estudante de humanas: um dos seus dez amigos é depressivo. Entre os ingredientes, está a competitividade, a pressão de não fracassar, chegar a determinada idade casado (a), com casa, carro, filhos, bom emprego e diploma de doutorado. O resultado são os consultórios cheios de gente adoecida, mesmo quando se sai bem-sucedido dessa maratona. No meio de toda essa escuridão que assola as pessoas, retomemos o item que é a razão da verborreia até aqui: O SACERDÓCIO. Não é de hoje que o Brasil tem vivido um déficit de padres, que, segundo a Folha de São Paulo em 2013, chegava aos vinte mil. O mesmo se refere aos consagrados.

 

Padre...

Mãos que abençoam e partilham o pão.

Os motivos para que a molecada corra da turminha de Melquisedeque são diversos. Para começar, existe a dinâmica louca que já citamos. Em uma sociedade que separa os vencedores dos fracassados, pensar na vocação religiosa é para muitos, sinônimo de derrota. Não sejamos hipócritas. A hipersexualização da juventude faz com que, quem pense no assunto, seja taxado ou de homossexual, ou de frustrado afetivamente. E em uma cultura machista que, para ser “homem” é necessário passar o rodo, ser visto como gay ou “pega ninguém” não é lá muito popular. Outra razão é a redução da taxa de natalidade. As famílias antigamente eram numerosas e muito católicas. Isso fazia com que muitos pais encorajassem os filhos a ingressarem no seminário, como o caso do Pe. Francisco das Dores Leite, o Mons. Chiquinho da São Judas Tadeu, que optou pelo altar junto de outros três irmãos. Hoje em dia, isso não se repete mais, pois muitas vezes a ideia de ver um filho não constituindo família desagrada os pais. Luciano Souza (29 anos), seminarista no último semestre do curso de Teologia pela PUC-SP e capoeirista nas horas vagas, aponta para outro item: “O chamado a vocação é muito particular. Acreditamos que Deus nos chama. Acredito que existem poucos vocacionados porque talvez falte um acompanhamento mais de perto e mais apropriado aos nossos dias. Acredito também que o contratestemunho de muitos sacerdotes colabora para que a vida sacerdotal não seja atrativa”.

 

A década de 1960 foi o marco de muitas dessas transformações: de um lado, a revolução sexual, de outro, ditaduras sanguinárias e ideias materialistas que ganhavam a juventude e por último, o impacto das mudanças do Concílio Vaticano II. Essa soma de fatores fez com que inúmeros seminários suspendessem seus trabalhos por escassez de vocacionados, entre eles, o de nossa Diocese, que se localizava em São Vicente, fechado por dez anos após decisão obtida na Assembleia Diocesana de 1968.

 

Coube a Pe. Júlio Llarena, o espanhol boa praça torcedor do Real Madrid, retomar os trabalhos em 1978, quando ingressaram seminaristas como Valdeci (Paróquia São Vicente Mártir, São Vicente), Luiz Carlos (Paróquia Santa Margarida Maria, Santos), Élcio (Paróquia Senhor dos Passos, Santos) e Eniroque (São Judas Tadeu, Cubatão). Seis anos depois, era construído o Seminário São José onde hoje conhecemos, no Morro da Nova Cintra, em terreno doado pela Cia das Docas ainda no bispado de Dom Idílio José Soares.

 

Apesar dos pesares, Pe. Júlio, que hoje em dia celebra na Reitoria Nossa Sra do Amparo, em São Vicente, enxerga como positivo esse período de deserto: “Todo momento de dificuldade não se dá por acaso. Traz consigo o amadurecimento”. Dom David Picão, bispo de Santos nesses anos conturbados, atribuiu a linha de trabalho da Pastoral da Juventude o aumento do interesse pelo sacerdócio, em entrevista concedida ao extinto jornal Cidade de Santos, em outubro de 1981.

 

LUTAR PARA MUDAR

 

Nos muros da Área Continental, a homenagem a religiosa que dedicou a vida aos mais pobres.

Nos muros da Área Continental, a homenagem a religiosa que dedicou a vida aos mais pobres.

A nós, leigos que trabalhamos com o jovem, cabe acompanhar os membros dos nossos grupos de base e ajuda-los a discernir, além de orar pelas vocações sacerdotais e religiosas, é claro. Mais ainda, é importante contribuir com a formação dos que já são seminaristas, para que estes, sejam comprometidos com o povo, e portanto, com o Evangelho. Mas se você é quem se questiona, procure o seu sacerdote, sem medo. Mesmo com todo o preconceito existente, vale lembrar uma pesquisa da Universidade de Chicago, que apontou o clérigo como o profissional mais feliz do mundo.

 

Aos indecisos, o seminarista Gleyson Quirino (21 anos), que cursa o quarto semestre do curso de Teologia na PUC-SP, deixa a mensagem: “Respondo com um trecho da Evangelii Gaudium do Papa Francisco: ‘’Mesmo em paróquias onde os sacerdotes não são muito disponíveis nem alegres, é a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente se essa comunidade vivente reza insistentemente pelas vocações e tem coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagração’’ (cf. EG, n.º 107)… Minha vocação ou desejo de dar um passo vocacional, surgiu graças a oração e o desejo de servir no meu Grupo de Jovens e na minha comunidade. O testemunho de uma comunidade que reza e está pronta a servir. É decisão de vida e os jovens de hoje não podem ter medo de tomar decisões. A vida é pautada em escolhas. Eu escolhi a melhor parte rs… Não tenham medo de encarar a longa aventura de dizer sim a Deus. Uma frase atribuída a Santa Teresa Benedita da Cruz: ‘’Responder ao chamado de Deus é sempre uma aventura, porém Deus merece este risco’’.

 

Luciano Souza também motiva: “Me senti chamado por querer continuar a missão de Jesus que é levar vida e dignidade as pessoas. Desde pequeno queria que as pessoas vivessem mais felizes. Acho que isso resume o que é ser sacerdote. Tornar as pessoas mais felizes e ser presença de Deus na vida delas. A mensagem que eu deixo é: Mesmo com as dificuldades, vale a pena. Não tenha medo. É uma possibilidade de vocação linda. Não significa que seja melhor ou pior que as outras. Mas apenas que é uma vocação, diferente das outras. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Como toda vocação existe dificuldades. Mas vale a pena”.

 

Por hoje é isso, galera. Abraço fraterno!

*Quem escreveu essa bobagem foi o Gines Salas e ninguém além dele tem culpa.

GRATIDÃO, PADRE TEGAMI: Amigo da juventude.

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Celebração na Igreja Matriz do Guarujá.

Missa de Dom Bosco 2015 – Celebração na Igreja Matriz do Guarujá.

“O segredo de permanecer jovem é ter uma causa a que dedicar a vida.” – Dom Hélder Câmara.

Pe Luiz Aparecido Tegami, SDB, presente na Paróquia Nossa Sra de Fátima e Santo e Santo Amaro (Guarujá) desde 2010, se despede dos trabalhos pastorais em nossa Diocese, indo para a capital paulista a serviço da Congregação. Fiel aos ensinamentos de Dom Bosco, ganhou o carinho dos pejoteiros de toda a Diocese. Dessa forma, o nosso blog publica hoje dois relatos, que procuram, ainda que seja impossível, expressar o sentimento de toda juventude:

” Foi em 2012, mas parece ontem. Ainda era integrante da base e estava as vésperas de articular uma semana missionária em minha comunidade, quando me reuni com ele na Igreja Matriz do Guarujá, sua paróquia. Com o casaco do Palmeiras e ostentando a sua cuia de chá, falando-me da saúde e do dia-a-dia de sua comunidade, vez ou outra tocávamos no assunto que me levou até lá: os detalhes do evento. Se mostrava tão humano e próximo que parecia me conhecer a seis meses.

– Te levo em casa agora. Onde você mora?

– Não precisa. – respondi.

Missão Jovem 2012

Pe Tegami e Pe Aluísio, durante a Missa de Envio na Missão Jovem 2012.

Moro no último bairro da área continental de São Vicente, periferia da cidade e que se encontra a trinta minutos da praia (indo de carro). Culturalmente, quem mora na minha cidade não deixa quem mora no Humaitá na porta de casa, mas concede a carona até o ponto de ônibus mais próximo. E a pessoa em questão morava na ilha de Santo Amaro, a duas cidades de distância de São Vicente. Mas como era 23h da noite de uma quinta-feira, aceitei a oferta. Afinal eu sou orgulhos, mas não sou burro.

Sim. Algumas vezes as pessoas nos conquistam pelos pequenos gestos. Não se limitando a uma única carona, ele esteve conosco pelo menos uma vez ao dia ao longo da Missão visitando casas, mesmo com a sua rotina paroquial. “Você não tem que me agradecer. É a minha Missão”, disse-me ele. Assim é o Pe. Luiz Aparecido Tegami, salesiano natural de Barretos (SP), que não tem medo de sentar ao chão em meio aos jovens e que costuma negar bajulações concedidas por ser sacerdote – antes do Papa Francisco “lançar a moda”. Nos últimos cinco anos em que esteve na Diocese, presidiu e organizou ao lado da PJ Diocesana a Missa em Louvor a Dom Bosco, padroeiro da juventude e fundador da Congregação a qual pertence. Sempre falante e verdadeiro, Pe Tegami se mostra amigo e é assim que conquistou lugar cativo no coração dos pejoteiros da nossa Diocese, tendo inclusive estendido a mão nos momentos que mais precisávamos. Mas a Igreja chama o nosso amigo para uma nova Missão, fora da baixada. E sabendo que isso faz parte da vida que ele escolheu, seguimos rezando, pedindo a intercessão de Maria Auxiliadora para que abençoe o seu fiel compromisso com a juventude. Muito obrigado.”

Gines Salas Neto, 25 anos. Membro da coordenação diocesana da PJ Santos

“O Padre Tegami me fez descobrir uma nova dimensão do sentido de ser cristão. Eu não tinha idéia de como era ter um sacerdote amigo, não um companheiro ou alguém em quem se pode confiar, mas um amigo na essência de sua palavra, aquele que você chora, ri, joga vídeo game, vai ao cinema, conta segredos, enfim, algo muito louco (rs).

Pe Tegami.

Visita surpresa na casa do Rafael, no dia de seu aniversário.

O Padre Tegami muito me ensinou sobre o discipulado, citando sempre João Batista, que por incrível que pareça é padroeiro da minha comunidade, e mostrando que para se trabalhar com a Juventude, devemos ser alegres como Dom Bosco. É um pai espiritual pra mim, que sempre puxou minha orelha nos momentos corretos e que transparece a face de Cristo.

Na retomada da articulação diocesana da Pastoral da Juventude, o Padre Tegami estendeu sua mão e nos abraçou, iluminando a esperança da juventude e revitalizando a fé de todos, para que fosse possível, trilhar novamente a civilização do amor.

Existem duas palavras que fazem os olhos do Padre Tegami brilharem, Palmeiras (QUE É GRANDE) e juventude, um palmeirense de coração, que sempre nos mostrou também que os padres são seres humanos e também possuem vidas iguais às nossas, isso permitiu que víssemos o clero de uma forma mais próxima e fraterna, o que colaborou muito com as relações diocesanas.

Em 2015, em meu aniversário, o pessoal do meu Grupo de Jovens armou uma festa surpresa, até aí tudo certo, porém mal sabia eu que o dito cujo estava por dentro das armações. Todos sentados em meu quarto assistindo filme de comédia e de repente alguém chama no portão. Quando fui atender, ninguém mais que o próprio Padre Tegami veio até a minha casa. O primeiro e único sacerdote que visitou minha humilde residência, sendo essencial para meus pais também, que não frequentam as missas presencialmente, apenas acompanham pela TV. Ver os olhos de minha mãe emocionados pela presença do Padre em sua casa deu uma reviravolta no meu coração e no meu espírito e renovou ainda mais meus votos de fé em Cristo.

Eu não gostaria de estar relatando tais sentimentos em uma ocasião tão triste quanto esta de sua saída de nossa Diocese, porém fico feliz em saber que outra Diocese será agraciada por Deus em receber este anjo maravilhoso, e honrado por Deus ter permitido que eu passasse um nobre tempo ao lado deste ser incrível, que se chama Luiz Aparecido Tegami.”

Rafael Apolinário dos Santos, 24 anos. Membro da coordenação diocesana da PJ Santos.